"Quando é bem construída, a maromba pode servir durante sucessivos anos. O mais comum, no entanto, é o pequeno criador improvisar um tosco girau para agasalhar o rebanho por ocasião da enchente, pois as madeiras boas são muito caras. Além disso, ele jamais perde a esperança de que na próxima temporada de inverno o rio não cresça demais e se possa dispensar essa antipática alternativa. É assim na várzea: vive-se de ilusão e se morre de raiva.
A maromba (foto) da “Fazenda Apuizeiro” foi preparada no último verão e Luiz Antônio, seu proprietário) andou gastando nela um bom dinheiro para fazer uma obra duradoura. O abrigo é constituído, em sua maior parte, de maçaranduba e itaúba, o que lhe confere muita resistência, tanto à corrosão da água como ao peso dos animais. Além de sólida e bem alicerçada, a moradia provisória do gado de Luiz apresenta as necessárias – mas nem sempre introduzidas pelos pecuaristas – divisões para as vacas com crias, novilhos e reprodutores. Igualmente aceitáveis são as condições de estabilidade da cerca protetora, para impedir que as reses caiam lá de cima. Ainda assim, de um ano para o outro são inevitáveis os reparos que se precisa fazer em todo o conjunto. É que, passando de três a cinco meses nesse hotel cinco estrelas, a boiada consegue fazer bons estragos na estrutura.
Finalmente, já se pode colocar a boiada no curral aquático. Mas começará também, a partir de agora e por um prazo de que somente Deus conhece a extensão, a tortura diária, pasmosamente cansativa, de alimentar um rebanho como criança de mamadeira, trazendo-lhe de enormes distâncias o capim cortado e reunido em feixes. Realmente, é um trabalhão que deveria ser ao menos assistido pelos grã-finos que, em luxuosos gabinetes refrigerados, partejam eruditas teses e elaborados ensaios, rotulando o caboclo amazônico de “indolente, vadio, alérgico ao desenvolvimento e reles bebedor de cachaça”. Nenhum desses tão operosos boas-vidas urbanos suportaria o brutal encargo de trazer, uma só vez que fosse, um batelão cheio de forragem colhida a meia légua de distância, no mínimo. Mas os “preguiçosos” varzeiros fazem isso diariamente, durante três ou quatro meses, com qualquer tempo e, inclusive, aos domingos, enfrentando fome, chuva, sol, insetos, cobras e outros ingredientes diabólicos que completam o mingau de uma terrível rotina.
Até março, o capim não está exigindo caminhadas muito longas para ser encontrado. A uma distância de meia hora de vela, se estiver bom o vento, ou a sessenta minutos de remo e varejão, em horas de calmaria. A partir de abril, contudo, o pasto vai escasseando, começa a ficar coberto pelas águas. Torna-se necessário ir cada vez mais longe para obtê-lo. Mesmo acordando às quatro horas da madrugada, não podem os caboclos fazer mais os dois carregamento diários, porque remam ou velejam de cinco a seis horas para completar uma viagem de ida e volta. E o que trazem, coitados, mal dá para dividir em minguadas rações individuais, pois o alimento, a essa altura da desgraceira, tem a finalidade básica de não deixar o gado morrer de fome. Comendo tão pouco e só uma vez ao dia, as reses vão emagrecendo. E o rio, como é que se comporta? Bem: cresce, cresce como o desespero de mãe que vê morrer seu único filho". (Trecho do livro "Maromba" - inédito - escrito por Emir Bemerguy)
A maromba (foto) da “Fazenda Apuizeiro” foi preparada no último verão e Luiz Antônio, seu proprietário) andou gastando nela um bom dinheiro para fazer uma obra duradoura. O abrigo é constituído, em sua maior parte, de maçaranduba e itaúba, o que lhe confere muita resistência, tanto à corrosão da água como ao peso dos animais. Além de sólida e bem alicerçada, a moradia provisória do gado de Luiz apresenta as necessárias – mas nem sempre introduzidas pelos pecuaristas – divisões para as vacas com crias, novilhos e reprodutores. Igualmente aceitáveis são as condições de estabilidade da cerca protetora, para impedir que as reses caiam lá de cima. Ainda assim, de um ano para o outro são inevitáveis os reparos que se precisa fazer em todo o conjunto. É que, passando de três a cinco meses nesse hotel cinco estrelas, a boiada consegue fazer bons estragos na estrutura.
Finalmente, já se pode colocar a boiada no curral aquático. Mas começará também, a partir de agora e por um prazo de que somente Deus conhece a extensão, a tortura diária, pasmosamente cansativa, de alimentar um rebanho como criança de mamadeira, trazendo-lhe de enormes distâncias o capim cortado e reunido em feixes. Realmente, é um trabalhão que deveria ser ao menos assistido pelos grã-finos que, em luxuosos gabinetes refrigerados, partejam eruditas teses e elaborados ensaios, rotulando o caboclo amazônico de “indolente, vadio, alérgico ao desenvolvimento e reles bebedor de cachaça”. Nenhum desses tão operosos boas-vidas urbanos suportaria o brutal encargo de trazer, uma só vez que fosse, um batelão cheio de forragem colhida a meia légua de distância, no mínimo. Mas os “preguiçosos” varzeiros fazem isso diariamente, durante três ou quatro meses, com qualquer tempo e, inclusive, aos domingos, enfrentando fome, chuva, sol, insetos, cobras e outros ingredientes diabólicos que completam o mingau de uma terrível rotina.
Até março, o capim não está exigindo caminhadas muito longas para ser encontrado. A uma distância de meia hora de vela, se estiver bom o vento, ou a sessenta minutos de remo e varejão, em horas de calmaria. A partir de abril, contudo, o pasto vai escasseando, começa a ficar coberto pelas águas. Torna-se necessário ir cada vez mais longe para obtê-lo. Mesmo acordando às quatro horas da madrugada, não podem os caboclos fazer mais os dois carregamento diários, porque remam ou velejam de cinco a seis horas para completar uma viagem de ida e volta. E o que trazem, coitados, mal dá para dividir em minguadas rações individuais, pois o alimento, a essa altura da desgraceira, tem a finalidade básica de não deixar o gado morrer de fome. Comendo tão pouco e só uma vez ao dia, as reses vão emagrecendo. E o rio, como é que se comporta? Bem: cresce, cresce como o desespero de mãe que vê morrer seu único filho". (Trecho do livro "Maromba" - inédito - escrito por Emir Bemerguy)

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