Advogado que pediu embargo diz que obra era irregular
Na tarde de ontem, Antônio Emídio de Araújo Santos, o dono da casa ao lado do edifício que desabou, ainda tentava confirmar se a esposa, Maria Raimunda Fonseca, de 67 anos, havia conseguido sair do imóvel. Mazinho Lima, genro da moradora, percorreu os hospitais e prontos-socorros da Região Metropolitana de Belém atrás de informações sobre a mulher que foi resgatada. "Nós não conseguimos confirmar se era ela ou não. A minha sogra estava na casa. O pedreiro que trabalhava na obra saiu, isso nós confirmamos. Agora se ela saiu, ninguém sabe ainda".
Proprietário de um dos imóveis destruídos pelo desabamento - e salvo junto com os familiares por ter saído de casa para almoçar -, o advogado Robert Zoghbi afirma que a construção do edifício era uma obra irregular.
"Essa tragédia estava anunciada. Eu venho pedindo desde 2008 o embargo desta obra. Por vários motivos. Na última quinta-feira, nós tivemos uma audiência na 11ª Vara Cível. Eu pedi que a minha casa fosse periciada. A juíza, doutora Patrícia, negou o meu pedido. Desde o começo, essa obra teve vários problemas. Foi embargada várias vezes por problemas de condições de trabalho e eles conseguiram liberar", denuncia o morador.
No momento do desabamento, ele, a mãe, a médica Vânia Zoghbi, e duas irmãs, estavam fora de casa. No imóvel, estava apenas um pedreiro, que conseguiu escapar da tragédia sem ferimentos.
Robert Zoghbi afirma, também, que o início da construção gerou rachaduras nas paredes da casa. Foram as rachaduras e a queda constante de materiais sobre o telhado da casa que motivaram a família a acionar a construtora na Justiça.
A família Zoghbi movia uma ação contra a Real Engenharia e outra contra a construtora Acrópole, proprietária do edifício Blumenau, o edifício vizinho que foi evacuado depois que estalos foram ouvidos em sua estrutura.
Dono de um consultório odontológico ao lado do outro prédio erguido pela Real Engenharia na travessa 3 de Maio, o edifício Real Dream, o dentista Fernando Moura afirma que durante a construção do primeiro edifício viu rachaduras no canteiro de obras do edifício.
"A parede estava rachada no meio. Eu perguntei pro engenheiro e ele disse que era normal, que era porque o terreno estava se acomodando. Como uma rachadura pode ser normal?", questiona.
Sobre o edifício que desabou, Fernando Moura afirma que a obra havia sido embargada na metade.
"Eles pararam de colocar o acabamento, de montar os azulejos, lá pelo décimo quinto andar. Para cima, estava tudo só armado", afirma.
Histórico - O desabamento do edifício em construção no bairro de São Brás, ontem, repete uma história trágica, registrada no dia 13 de agosto de 1987. Foi nesta data que o edifício Raimundo Farias desabou, na rua Diogo Moia, próximo à Doca, em Belém. Trinta e nove operários morreram no desabamento.
Governador do estado fala em "apurar responsabilidades"
O governador do Estado do Pará, Simão Jatene, esteve no local do desabamento no final da tarde de ontem. Ele lamentou o episódio, que classificou como "uma tragédia" e falou em "apurar as responsabilidades". Questionado sobre o número de possíveis mortos, o governador confirmou a informação de que as equipes de resgate do Corpo de Bombeiros trabalhavam com a hipótese de que entre três e seis operários estavam no local.
"A princípio nos foi informado que havia mais de vinte pessoas na obra. Mas a empresa nos confirmou um outro número, entre três e seis operários. O governo já pediu a lista de todos os funcionários que trabalhavam na construção e que poderiam, por qualquer eventualidade, estar no local no momento do desabamento. Equipes da empresa estão indo nas casas dos operários para confirmar este número", afirmou Simão Jatene.
Questionado sobre os possíveis embargos e liberações da obra, Jatene afirmou que o governo cobrará a apuração das responsabilidades. "Agora, nós temos todos que lamentar. O Estado vai apurar e se isso for constatado (se houve a liberação irregular da obra), nós cobraremos punição".
O prefeito de Belém, Duciomar Costa, também esteve no local do desabamento no final da tarde de ontem. Duciomar colocou os equipamentos da Secretaria de Saneamento e da Secretaria de Urbanismo à disposição para o trabalho de remoção dos escombros.
Em nota, a Prefeitura de Belém informou que 200 funcionários estão trabalhando em regime de plantão na área da tragédia. Sesan, Sesma, Seurb, Semma, Guarda Municipal, Funpapa, Ctbel, Defesa Civil e AmaBelém participam dos trabalhos.
Sindicato afirma que trabalhadores não poderiam estar no local
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, Aílson Cunha, que no começo da tarde informou que vinte trabalhadores estariam na construção no momento do desabamento, afirmou que se estivessem trabalhando na obra, na hora do acidente, os operários estavam em situação irregular.
"Nesta situação, de trabalho em um sábado à tarde, a empresa deve comunicar o sindicato. Eu não sei se houve essa comunicação. Se não houve, era uma irregularidade. E uma irregularidade que é frequente. As empresas colocam o trabalhador fora do horário de trabalho e não seria a primeira vez", afirmou.
O presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea/PA), José Leitão de Almeida Viana, afirma que não havia, sobre a obra, qualquer notificação de irregularidade nem qualquer indício de desabamento. "No Crea, não havia nenhuma denúncia de irregularidade. O chefe da fiscalização do Crea está aqui para apurar se havia alguma irregularidade".
Sobre o comprometimento das estruturas das construções vizinhas, José Leitão de Almeida Viana, que é engenheiro civil, afirma que, por terem fundações independentes, os edifícios localizados na travessa 3 de Maio não correm risco de desabar. "Eles foram evacuados por uma questão de segurança e devem passar por vistorias técnicas", afirmou José Leitão de Almeida Viana.
Trepidação - "Eu pensei que era um terremoto. Foi um barulho enorme. Começou menor e depois foi aumentando, aumentando", relata Vanessa Guimarães, vizinha do edifício Blumenau. A casa dela, a dois terrenos do prédio que desabou, ficou encoberta durante alguns minutos por uma espessa nuvem de pó. Ela afirma que, segundos depois do desabamento, ainda era possível sentir a terra tremendo.
"Era como se estivesse vindo um tsunami, ou como se tivesse um terremoto, não dá para explicar", relata Andreia Guimarães, irmã de Vanessa. Quando chegou à rua, Andreia viu a montanha de entulho que se formou e engoliu a casa das vizinhas. "Houve uma correria. Todo mundo saía correndo das casas. Ninguém sabia o que estava acontecendo. A terra tremia. No outro lado da rua, eu vi pela janela, tinha dois operários na casa, eles não conseguiram ficar em pé". (No Amazônia)