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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Cidade sitiada

“Ninguém está entendendo a indiferença das autoridades responsáveis pelo policiamento de Belém. Quanto mais se grita e protesta contra esse banditismo sem controle, menos se sabe de providências capazes de conter e anular a desenvoltura de marginais que fazem da vida e dos bens do próximo, brinquedos baratos, desses que se compram aos montes e se destroem a pontapés.

O que será preciso, afinal, para serem tocados os corações dos que dispõem de meios de colocar um paradeiro em tal descalabro? Será necessário, porventura, que eles, os figurões do poder, provem a brutalidade irracional, que sintam na própria carne como dói uma punhalada ou quanta falta fazem criaturas queridas, monstruosamente mortas, ou os bens levados pelos gatunos? – São perguntas que se perdem nos labirintos dos ventos, mas que devem ser urgentemente respondidas.

Somos os artífices de nosso futuro e, por isso, não temos obrigação alguma de olhar esse festival de roubos e homicídios como uma cruel fatalidade a que não se pode escapar. Demo-nos as mãos, somemos coragem, lucidez e firmeza. Quem pode escrever, escrevam, gritem outros, pressionemos todos. Não é possível que esses criminosos prossigam comandando os acontecimentos, transformando um povo inteiro, pacato e alegre, em bainha de faca e carniça de revólver.

Não devemos dar trégua aos poderosos, forçando-os à imediata e decisiva ação, pois sua inércia muito se assemelha à do sujeito que considera refrescante a pimenta esfregada em olhos alheios. Todo mundo sabe que, quando ocorre um crime particularmente chocante, desses que põem as multidões em revoltada efervescência, a máquina policial funciona mesmo e em pouco tempo os protagonistas são apanhados, numa prova indesmentível de que eles, os graúdos, agem quando querem. Embora eu não deseje que isso aconteça, não tenho a mínima dúvida: no dia em que for assaltado um membro de cúpula administrativa, a repressão há de ser formidável e as coisas começarão a mudar. Desgraçado, porém, do povo que precise esperar a desdita pessoal de seus líderes para que se inicie a luta contra os inimigos de todos.

O governo do Pará deve colocar sob a rubrica de ‘urgência urgentíssima’ o combate organizado, diuturno e intensivo aos sicários que povoam as ruas e os pesadelos da população assustada. Que se concentrem maciços recursos e esforços nessa cruzada permanente contra as quadrilhas de monstros que tornam tão difícil descobrir-se a imagem de Cristo no próximo.

Parece que ninguém suportará por muito tempo ainda essa dramática e absurda inversão de situações: enquanto os cidadãos livres, sérios e inocentes vivem confinados atrás de grades domésticas, os ladrões e assassinos dominam as ruas, espalhando a viuvez, a orfandade, a mutilação, a miséria, a morte. Que os ilustres deputados e vereadores renunciem, por uns dias, aos seus festivos requerimentos congratulatórios para formar uma frente única, supra-partidária, capaz de engrossar o coro dos que exigem rápidas e frutuosas providências. Política, afinal, é a arte de promover o bem comum.

Com todo o meu cristianismo, sinto-me à vontade para emitir um protesto como este, pois religião alguma, e muito menos a minha, nos manda ser coniventes com o mal e passar a mão em cabecinhas de criminosos malvados, sem alma, que funcionam deliberadamente como crudelíssimos algozes de seus semelhantes. Nada mais ridículo e até suspeito, pois cheira a cumplicidade, do que, em horas assim, lermos ou escutarmos piedosas palavras, manifestações sobre direitos humanos, sobre a tolerância no trato com malfeitores extremamente perversos, que torturam brincando, que matam entre gargalhadas. Essa gente, a rigor, só entende o diálogo da força, da intimidação, embora eu não chegue ao extremo de advogar medidas sanguinárias, pois não se precisa responder a brutalidade com selvageria.”

Do blog:
Creio que o texto acima, parte da crônica “Cidade Sitiada”, de autoria do meu mano Emir Bemerguy, escrita em outubro de 1978 e publicada no jornal O Liberal, demostram que, de lá pra cá, pouco ou nada mudou em termos da violência que, igual ou pior àquela época, nos dias de hoje amedronta e coloca em pânico não só a população de Belém, mas também de muitas cidades do interior, nas zonas rurais, enfim, em todos os lugares do Pará. Faço votos que as providências solicitadas pelo referido cronista, sejam objeto de reflexão por parte das autoridades que comandam atualmente os órgãos de segurança pública no Pará e as coloquem em prática

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