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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - Banho em Alter do Chão

Emir adorava banhar-se no rio Tapajós, em Alter do Chão, principalmente. E, depois...
... saborear um peixinho frito em uma das barracdas da Ilha do Amor, ao lado de sua querida Berenice.
Mais aqui >Cantinho do Emir  

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - Ser Cristão

SER CRISTÃO
A coisa mais difícil que conheço
É ser cristão!
Não falo desses frívolos beatos
Cuja piedade se limita apenas
A obrigatórias missas e novenas,
A procissões e inócuas confrarias...
Cristãos de araque...
Porque no mundo, além das sacristias,
Pensam que Deus só vive lá na igreja,
Suando, bem trancado no Sacrário...
Fiéis que seguem duplo itinerário:
Com a mão direita benzem-se, contritos,
E com a esquerda acendem vela ao diabo!
Cristãos folclóricos...
Não ajudam ninguém... Odeiam... Caluniam...
Mas vão à igreja: sentam-se na frente,
Em anjos se transformam, de repente,
E eis as caras mais santas da paróquia!...

Basta, porém. Voltemos ao começo:
A coisa mais difícil que conheço
É dizer-se cristão por ideal,
E agir, e conduzir-se como tal!
"Por que Me declarais Senhor! Senhor!
E não fazeis aquilo que vos mando?
Em verdade, em verdade, reparai:
Aquele que Me honra apenas com seus lábios,
Não chegará comigo ao Reino de Meu Pai!"
Lembram-se disto?
É a palavra imortal do próprio Cristo!

Eu lhes pergunto, então:
Concordam que é uma luta ser cristão,
Ser santo em pleno mundo de cretinos,
Ser puro rodeado de devassos,
E, em meio a essas misérias e fracassos,
Cantar a linda ou sórdida canção da vida
Sempre afinada pelos tons divinos?
Pois bem. Eis a resposta
Daquela Voz que nunca, jamais passa:
"Basta-te, filho, a ação de Minha Graça.
Nada podes sozinho. Mas tu e Eu - nós dois -
Em qualquer tempo - hoje, amanhã, depois -
Seremos maioria esmagadora!"
Ó Deus de Amor! Palavra alentadora!
Ser bom cristão, às vezes, é terrível,
Difícil, sim, penoso, mas... POSSÍVEL!
(Emir Bemerguy - 07/09/1970) 

Mais aqui >Cantinho do Emir

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - Meu Cristo... ladrão

MEU CRISTO... LADRÃO
Nascestes entre animais, ó meu Jesus!
Morreste entre ladrões!
Por que?
A uma resposta a fé que eu tenho me conduz.
Tu, Rei dos Reis, Potência Criadora
De mil milhões de mundos formidáveis
Girando nos abismos siderais,
Chegaste a nós em simples manjedoura
- Oh! Que emoção sublime ora me invade! -
Para nos dar exemplo de humildade,
Do desapego aos bens materiais,
Provando logo aquilo que dirias mais tarde:
"Benditos os que têm a alma despojada,
O espírito de pobres, sem querer mais nada
Além da glória de seguir-Me os passos,
Caindo eternamente nos Meus braços!"
Morreste entre ladrões... Escândalo? Vergonha?
Mil vezes não! Tu sempre foste UM deles:
És o infinitamente Santo e Bom Ladrão,
Porque roubaste, ó Cristo, para todo o sempre,
O meu outrora triste, amargo e tão vazio,
Mas hoje apaixonado e alegre coração!...
(Emir Bemerguy - 21/05/1972)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - A medicina de Mamãe

A medicina de mamãe
Trecho do livro de memórias de Emir - "Enquanto eu me lembro" - em que ele conta os métodos pouco ortodoxos usados por sua mãe, Dona Didó, para manter os filhos livres de vermes...

Sempre que presencio as dengosas reações dos meus filhos ante a ingestão dos geralmente coloridos e saborosos remédios atuais, logo sinto a memória retroceder no tempo e me ponho a recordar vivências marcantes da longínqua meninice. Adoecer, nos dias de hoje, é incomparavelmente menos martirizante do que outrora, quando, às vezes, só o medo de bárbaros tratamentos restituía magicamente comprometidas saúdes.

Vermífugos... Purgantes... Hoje, a criança nem sequer precisa saber que está sendo medicada contra lombrigas: a mãezinha adiciona ao leite, à refeição, um produto que ali se dissolve sem alterar o sabor do alimento e irá exercer poderosa ação sobre os parasitas intestinais. Naquela época, porém, a escola podia até ser “risonha e franca”, mas os tratamentos eram carrancudos e confundiam franqueza com grosseria.

Duas vedetes então pontificavam na área dos purgativos: o óleo de rícino ou mamona e o quenopódio, cada qual mais intragável do que o outro. E as duas pragas se reuniam para formar uma terceira: a “Panvermina”. Pois era esta que Mamãe preferia - uns comprimidos redondos, enormes, moles, que, ao menor contato com os dentes, soltavam seu conteúdo na boca, deixando um gosto de inferno, de alma penada. Agora, o ritual, a cuja simples evocação meu rancoroso estômago ainda protesta, com ânsias de vômito.

Eros e eu - os dois filhos maiores - tomávamos o odioso remédio em todas as férias de fim de ano, tivéssemos ou não cara de quem hospeda vermes nas estranhas. Às quatro horas da madrugada éramos acordados de um sono dormido a prestações, tal o pavor do negro dia que nos aguardava. Creio que a última noite de um condenado à morte não deve ser muito mais agoniada...

Mamãe aparecia já com o vidro de “Panvermina” em uma das mãos e uma tigela de horroroso chá fumegante na outra. Eu sempre tinha o privilégio de ser guilhotinado primeiro, supostamente pela maior docilidade, mas, de fato, porque mais intenso era o medo da digestiva palmatória. Fazendo o sinal-da-cruz, fechava o nariz e ia engolindo as terríveis bolotas (seis, em média), ajudando-as a descerem com uns forçados goles de chá. Afinal, friccionando o ventre para conter os espasmos expulsivos, estava pronto para assistir à melhor parte do espetáculo: a “panverminação” de meu pobre mano que, até hoje, trinta e tantos anos volvidos, só toma qualquer pílula em perigo de vida. E vale a pena um parágrafo.

Eros fazia o maior dos escangalhos para ser medicado. Enquanto para mim aquilo tudo se apresentava como um “purgatório” em pleno sentido, ao seu infantil julgamento a tortura da madrugada assumia as fantasmais proporções de um enlouquecedor inferno. O rebelde guri estragava meia dúzia de cápsulas para deglutir uma só, mordendo-as, espatifando-as na boca semi-cerrada. Isto, por entre uma alegre banda de música de pescoções e chineladas gradativamente numerosos; as bordoadas iam se tornando mais vigorosas e frequentes na exata proporção em que o chá esfriava e a “Panvermina” era desperdiçada. Ele só engolia mesmo as petecas diabólicas quando papai deixava de fumar, nervoso, na rede vizinha e evoluía dos ralhos inofensivos aos enérgicos bolos de palmatória. Que drama, ó Deus!... E ao terminar a suarenta agonia anual, o Sol já saíra, tanto ela se prolongara; às vezes, entretanto, até as auroras se antecipavam, curiosas, para verem que confusão era aquela...

Só isto? Coisa nenhuma! Agora, serenados os ânimos e reposta a ordem no campo de batalha, vinha a não menos temível “dieta”: vinte e quatro horas trancados num quarto calorento (golpes de ar eram um perigo...), tomando chá e caldo de galinha! Jamais entendi as misteriosas razões do severo resguardo, mas desconfio que os antigos tentavam agredir os vermes por todos os lados, privando também os indefesos bichinhos de luz e ar... Eis uma das definitivas consequências de tão insólita medicina: Eros e eu nunca mais, vida a fora, suportaríamos chá de qualquer espécie e muito menos caldo de galinha! Ah! Não existe nada como essas tão saudosas fixações da “infância querida que os anos não trazem mais”!

Pode-se indagar, agora: mas valia mesmo a pena toda essa aflitiva encrenca? “Meninos, eu vi!” - diria o austero poeta: vi, com estes olhos que não gostaria que a terra comesse tão cedo, vi sadias lombrigas de quase meio metro desabarem, céleres, dos envenenados intestinos para menos pestíferos urinóis! Mas, por vingança, deixavam sempre - os demônios! - um estoque de larvas para as diversões das próximas férias...

Faz uns dez anos. Estava eu numa farmácia da cidade, quando ouvi claramente uma senhora humilde perguntar à balconista se ainda vendiam “Panvermina”. Saí, apavorado, vendo e ouvindo súbitas visagens: mamãe apareceu com a tigela e o amaldiçoado vidro e presenciei nitidamente os esperneantes berros de meu valente mas sempre derrotado irmão.
 (Emir Bemerguy - Enquanto eu me lembro -1975)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - O velório

  O velório
Mais um trecho do romance "Maromba", pinçado do blog "Saudade Perfumada", de Emir Filho. Aqui se conta a história do velório de um ribeirinho.


Maria Flor está cerzindo umas roupinhas das crianças. Atraída por movimentos de remos forcejando contra a correnteza, levanta os olhos do trabalho: uma canoa com dois vaqueiros chega à casa da fazenda.
- Ei, seu Presidente!
- O papai não tá,  responde um dos garotos.
- Que é, Pedroca? - interroga a patroa, reconhecendo o caboclo.         ~
De cabeça baixa, o reforçado varzeiro comunica:
- Seu Romuardo Bicudo morreu, não faz bocado. Paresque foi besterada no coração dele. O enterro é amanhã e a gente viemo convidar pro quarto.
Espantada com a brutal notícia, Maria faz o sinal da cruz, reza em silêncio e promete que combinará com o esposo, ao chegar com Zé Potoca, o jeito de comparecerem à residência enlutada.
Nesse mundo líquido, cujo único e frágil cordão umbilical com a civilização é um rádio de pilha, velório - ou “quarto”, como eles chamam - é uma forma de divertimento, quase uma festa. Sem lazer algum, a braços com uma luta feroz e diuturna pela simples sobrevivência, os ribeirinhos transformam a vigília para um defunto em desinibida reunião social onde nada falta: comilança, beberança, baralho, dominó, mexericos. Por isso, ninguém perde um desses encontros e cada família colabora com alguma coisa para amenizar a situação dos herdeiros sem herança. Como ocorre nos puxiruns, leva-se um pouco de querosene, farinha, café, bolacha, velas de cera e cachaça.
Deixando as crianças com Zé Potoca, lá se vai, à noite, o casal. Apesar de a distância ser pequena, como está ventando muito, preferem usar o barco “Flô das onda II” para vencer os quatro quilômetros da viagem. Como contribuição para o ato fúnebre, levam um quilo de farinha, açúcar e meio litro de querosene.
Encontram muita gente e pouco choro. Protestante não é, em geral, espalhafatoso ante a morte, pois, convicto de que o extinto está salvo só por causa da fé que possuía, de certo modo exulta quando um irmão se vai, porque ele ganhou o céu antecipadamente, apenas dizendo “Jesus é meu Senhor”. Após cumprimentar os parentes do falecido, cada qual se arruma como pode. As mulheres fofocam na ampla cozinha, enquanto os homens fazem avaliações de prejuízos na sala da frente. Não há velas acesas e nem se fala em rosário de Nossa Senhora, desde que o morto era Testemunha de Jeová, não tendo necessidade alguma dessas gorjetas aos santos para transpor, lampeiro, os portões do paraíso...
Conversa vai e vem, café aparece e some, cachaça chega e não dá para quem quer. A família é protestante, mas respeita os costumes da várzea e deixa beber quem quiser. Começa, então, um animado “sete e meio”, o famoso e fácil jogo de baralho. Formam-se três rodas, sendo uma na mesa grande e duas no chão, à luz de resfolegantes “Aladins” - candeeiros de luxo, usados somente em ocasiões especiais.
- Hum!... Essa curimatá muquiada tá muito porreta! - proclama Nhuquinha Catauari, farejando o ar, de cara erguida. O cheiro da coirona mata a catinga do querosene. Vou tirar a barriga velha da misera nesse quarto do Bicudo.
- Bota mais uma aqui, Rosa! - pede Miró Sardinha. Hoje eu quero encher a cara pra não me alembrar dos perjuízo dessa enchente do cão.
E a temperatura vai esquentando... Saem anedotas pouco familiares... As reações evoluem das discretas risadinhas particulares às estrondosas gargalhadas coletivas... Come-se enquanto se joga baralho, dominó e conversa fora. Brinca-se. A noite avança. De repente, a queixa insultuosa: - Tu tá rubando, seu curno! - grita Zeca Tralhoto, a esfregar as cartas do baralho no focinho de Juca Toró.
Com várias doses de aguardente no lombo, o ofendido nem pede explicações: planta o braço no pé do ouvido de Tralhoto, quase tão bêbado quanto ele próprio e... o tempo fecha! Lá da cozinha, a mulherada berra: - Meu Deus! Respeitem o falecido!...
Não se respeita nada. Reviram-se as cadeiras, candeeiros são quebrados. Até o defunto desabou da cama onde estava, pois, generalizado o conflito e com ambiente meio escuro, um dos brigões caiu por cima dele. Porre como se encontrava, julgou que fosse um adversário e não teve dúvidas: encheu de murros as ventas de Romualdo e o fez rolar para o chão, a pontapés!
Quase todos trocam coices e poucos tentam acalmar os valentes, pondo alguma ordem naquela tremenda bagunça. Diversos caíram no rio, à força de empurrões, tapas ou pisões, e a velha Nica Farofa está de cabeça partida, tal o entusiasmo de um cascudo que lhe acertaram com um dominó. Musculosos e abstêmios, os filhos de Romualdo Bicudo, ajudados por Presidente, gritam, pedem calma, por entre bofetões e gravatas distribuídos entre os que precisavam aprender a criar vergonha, ao menos em velórios.
A muito custo, após dez minutos de pau solto e escoriações de larguras variáveis, o ambiente retoma a perdida paz. O defunto readquire sua dignidade comprometida, providenciam-se curativos. Os mais bêbados são postos em sossego, amarrados nas canoas, e a liturgia prossegue, entre novas doses de café, merendas e joguinhos de dominó e baralho. Ninguém bebeu mais, porque a cana acabou. A noite já exibe vergonhosas rugas de velhice remelenta. Não tardará muito a ceder, emburrada como fedelho de castigo, o trono a um novíssimo dia de luzes e de luto, de lutas sem lucros.
Sepultaram Romualdo no cemitério de Paricatuba e ele se enfiou no túmulo com os óculos na cara esmurrada: era sua derradeira vontade, expressa nos estertores da morte. Com sacrifício, pagara as lentes esverdeadas no crediário da “Ótica do Povão”, lá na cidade, e não queria deixá-las para ninguém. Talvez pretendesse apreciar melhor o festim dos vermes sobre suas carnes...
Voltando ao lar, Maria Flor comenta, entre dois bocejos: - Puxa! Esse quarto do seu Romuardo até que não foi ruim. Tem uns tão chato que dá até vontade de dormir. A briga foi animada e eu só não gustei de jogarem o defunto no chão.
Antônio concorda, com uma restrição: - É. Eu só não achei mais melhor porque até agora não sei quem foi o filho duma égua que me sapecou um baita beliscão na bochecha da bunda, na hora da porrada. Quase arranca um pedaço. Vou até fumentar com andiroba e saro
Vute! - finaliza a companheira. Quem sabe, meu bem, se não foi o falecido Bicudo. Benzendo-se, explica a hipótese: - Ele era tão brincalhão!... 
(Emir Bemerguy - trecho do romance "Maromba" - 1975)

sábado, 12 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - Puçanga esquisita

 PUÇANGA ESQUISITA 
Eu vou contar uma história,
Fiado só na memória:
Faz muito tempo que a ouvi.
Um cabra namorador,
Metido a conquistador,
Chegou certa vez aqui.

O talismã fabuloso,
OLHO DE BOTO famoso,
Pretendeu logo comprar.
Sem demora apareceu
Alguém que lhe ofereceu
Um, novinho, de estalar...

Por artes não sei de quem,
O sujeito, entrou, porém,
A falar fino, engraçado...
Um fenômeno esquisito:
Só homem vinha e ele, aflito,
Deu de andar bem rebolado...

Procurou, muito sem graça,
O vendedor que, na praça,
Gozava a peça marota...
Depois de tanto inquirir,
Acabou por descobrir:
Era olho, mas... de BOTA!
(Emir Bemerguy - 10/11/1966)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - O amor

O AMOR
A mim perguntas, bela adolescente,
(Pois desta vida quase nada entendes),
Como defino o Amor onipotente,
Cujos caprichos - dizes - não compreendes.

Do amor, menina, foge muita gente
Como se corre, à noite, dos duendes...
Contraditório, ilógico, exigente,
Sem amor, choras... Se amas, te arrependes...

Amor... Queixume no planar das liras...
Luz que norteia o peregrino ao léu...
A mais encantadora das mentiras!...

Amor... Tem prantos e sorrisos ternos...
Pode mostrar-nos o esplendor do céu
E os suplícios de todos os infernos!...
(Emir Bemerguy - 25/02/1967)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - Com maestro Isoca

No vídeo acima, o maestro Wilson Dias da Fonseca, o Isoca, e o poeta e escritor Emir Bemerguy, que faleceu em novembro do ano passado, falam de parcerias e de amores.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - Versos feitos de lágrimas

VERSOS FEITOS DE LÁGRIMAS
"Se sofres, procura transformar em versos a dor que te maltrata." (Goethe)

Na penitência de uma desventura
É que se pode um homem redimir,
Pois o inclemente embate da amargura
Purifica, não raro, após ferir

Efeito natural de outra tortura
Permanente como esta de existir,
O sofrimento abate e desfigura
Se a ele não sabemos nós reagir.

Quem sofre, companheiro, não maldiz
A vida que o tornou tão infeliz;
Não chora, não lamenta, nem blasfema.

Se sofres, extravasa em verso ardente
O teu pesar, a mágoa persistente.
Faze da dor, se sofres, um poema!
(Emir Bemerguy - junho/1954)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - Meu pai

MEU PAI
(Por Lúcio Ércio Bemerguy, filho de Emir)

O que mais lhe agradou  a alma, o coração?
O que diriam  os amigos,
Qual sua visão?
A poesia!
Os mais apressados,
Certamente dirão.
E não lhes tiro a razão
Pois mais de setecentos poemas
Brotaram de sua inspiração,
Mas não foi isso não.
Lhes garanto,  meus irmãos.
As pescarias!
Lembrariam outros.
Decerto, outra boa opção
Pois nos rios da Amazônia
Só não pescou tubarão.
Aquela ou esta opção,
São lógicas escolhas
E de fácil aceitação
Pois nos momentos difíceis,
Na luta diária do pão
Era nos rios e nos lagos
Ou com a caneta na mão
Que recuperava as forças
E renovava a disposição.
Nós, no entanto,
Filhos, netos, mamãe
Bem sabemos de outra,
Esta, a grande opção
O que mais lhe caracterizou a vida
É muito mais grandioso,
Estava no coração
Não foi poesia ou pescaria,
Não, não foi isso não
E agora, lhes digo então:
Era ser pai de família,
Ser honesto e cristão,
Ser  instrumento de Deus
Operário da Evangelização
Fez isso todos os dias,
Diante de nossa visão
Com o auxílio da Virgem Maria,
A Senhora da Conceição!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

"Cantinho do Emir" - O violino

O VIOLINO
O coração é como um violino
Engastado por Deus dentro do peito
Para tocar ali, de qualquer jeito,
As canções que compõem nosso Destino.

Pode ser dado acorde tão perfeito
Ao instrumento e pequenino,
Que nos parece um madrigal divino
O som sublime, puro, sem defeito.

Porém é triste, às vezes, a balada,
Ou tão sem graça, sórdida e ruim,
Que só magoa, cansa, irrita, enfada...

Mas temos de cumprir a ingrata sina
De ouvir a má canção até o fim,
Sentindo que a rabeca desafina...
 (Emir Bemerguy - 06/11/1966)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

"Cantinho do Emir" - Triunfal consagração

TRIUNFAL CONSAGRAÇÃO
(musicado pelo autor)

De dois rios és namorada
Ó cidade idolatrada!
Todo mundo te quer bem!
Leva tempo muito longo
Se começa o mocorongo
A louvar-te, SANTARÉM!
Porque tens tanta beleza,
Penso até que a natureza
Tem predileção por ti.
Andei por outros recantos:
Fui olhar os seus encantos.
Ah! se vissem os daqui!...
Qual morena sem vaidade,
Mas bonita de verdade,
Nos cabelos uma flor,
Cada vez que um ano passa
Tens mais vida, tens mais graça,
SANTARÉM do meu amor!
Uma prece comovida
Fiz por ti, terra querida:
Supliquei a Deus Bondoso,
Com fervor no coração,
Triunfal consagração
Num porvir maravilhoso!
(Emir Bemerguy - 07/06/1967)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"Cantinho do Emir" - Pais e filhos

 Garimpando os escritos (de 1966) do meu mano Emir, encontrei esta jóia, para reflexão:
PAIS E FILHOS
“Ter filhos não significa apenas havê-los gerado, dar-lhes de comer e de vestir, matriculá-los em bons colégios, proporcionando-lhes todo o conforto material que o dinheiro pode comprar. Ter filhos é ainda muito mais que isso: é prestar-lhes a máxima assistência espiritual e moral, é ampará-los em todos os transes da vida e, sobretudo, formá-los para que não se deformem, para que não se transformem naquilo que não desejamos, ou seja, em cidadãos nocivos à sociedade.

Os métodos que os pais adotam para impor sua autoridade sobre os filhos, tem uma decisiva influência sobre a educação dos mesmos. Tanto erram aqueles que proporcionam liberdade total aos filhos, como aqueles que se transformam em tiranos dentro de casa, tal o rigor de seus sistemas educacionais. Assim, chega-se à conclusão de que o método ideal para se merecer o respeito e a confiança dos filhos, situa-se, como sempre, entre os dois extremos: nem a liberdade total, preconizada por certos educadores modernos, nem a tirania”, que ainda encontra tantos adeptos nos dias atuais.

Como pais, não podemos, comodamente, fugir às nossas responsabilidades, culpando os jovens por seus desregramentos. Antes de nos envergonharmos deles, lembremos que nossos filhos precisam, e muito, de ajuda, de amparo e de muito amor. Se nossos filhos vencem na vida, se brilham nos estudos ou na profissão, achamos que a nós eles devem as suas vitórias, a nós cabe a maior parte das glórias conquistadas. É justo, é humano agirmos assim. Entretanto, se os moços fracassam, se são delinqüentes, uns inúteis, uns derrotados, entendemos, quase sempre, que a culpa é somente deles, que nenhuma responsabilidade nos pode ser atribuída pelos seus insucessos. Não e não. Se participamos de seus triunfos, compartilhemos as suas derrotas que são nossas também e, doloroso é afirmar, quantas vezes não somos os únicos e exclusivos responsáveis por elas. Orgulhemo-nos das vitórias mas saibamos, também, responder pelos erros de nossos filhos, pois as suas glórias ou os seus fracassos são uma decorrência natural da formação que lhes demos.”

sábado, 22 de dezembro de 2012

"Cantinho do Emir" - Hino da ALAS

HINO DA ACADEMIA DE LETRAS E ARTES DE SANTARÉM (ALAS)

Letra: Emir Bemerguy e Vicente Fonseca 
Música: Vicente Fonseca 

Academia de Letras e Artes de Santarém
Antologia da nossa cultura
Seleção dos imortais
Teus patronos que fizeram a história
A memória que devemos honrar
Neste hino que cantamos
Como o rio Tapajós
De riqueza sem par.


1º Refrão
Florilégio neste lindo jardim
Dos poetas, pintores, artistas
Nossos mestres, nossa eterna lição,
Seus exemplos devemos seguir
Nesta nobre missão
Belas musas que surgem do além
Inspirando a canção.

II
Academia tu és santarena, quanta emoção!
És nosso guia na vida e na obra
Fala a voz do coração
Neste canto da mais pura homenagem
Aos tesouros que a história nos deu
Sodalício tapajônio
Guardo nesta canção
Este hino que é teu.

III
Santarém continua brilhando
Na Cultura que a nós engrandece.
E na terra tão bela e querida,
Seu valor que é tão grande aparece.

2º Refrão
Hoje somos nas letras e artes
Bem unidos por sermos irmãos.
Com orgulho, integramos a ALAS,
Pondo obras bonitas nas mãos!

IV
Nós mantemos o lindo ideal
De espelhar mil belezas também.
Que Deus sempre nos guarde e ilumine
E a ti, nosso amor, Santarém!
(Vicente Fonseca escreveu os textos das estrofes I e II, do 1º Refrão e do Final, além dos dois primeiros versos do 2º refrão. Emir Bemerguy escreveu os textos das estrofes III e IV e os dois últimos versos do 2º Refrão.)


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

"Cantinho do Emir" - Devastação


Trechos de um artigo de autoria de Emir Bemerguy, publicado no jornal ´A Folha do Norte`, edição de 12 de março de 1980 e denominado "Devastação":
"Somente se interessam pela nossa Amazônia para extorqui-la, queimá-la e devastá-la. O que o Padre Antônio Vieira disse dos colonizadores portugueses em relação ao Brasil, podemos aplicar aos que hoje invadem a formidável Hiléia: “Eles não vêm até aqui para procurar o nosso bem, mas sim os nossos bens”. Aí estão, dentre mil exemplos, a bauxita do Trombetas, o ouro do Tapajós, o manganês do Amapá.

O que mais estarrece e desanima é a indiferença, a passividade com que as lideranças assistem os esbulhos. Como se isto aqui fosse uma espécie de casa da Mãe Joana. Forasteiros chegam, agem como lhes dá na veneta, escavam, incendeiam, expulsam o homem... e fica por isso. Não sei, palavra de honra, o que falta para nos convencermos de que o cacique Ajuricaba estava certíssimo ao gritar, nas ventas dos invasores: “Esta terra tem dono!”. Em verdade, parece não ter. Somos todos brasileiros, sim, isto aqui é patrimônio nacional, não nos move o egoismo suicida e admitimos até alegremente a presença de irmãos de outras áreas em nosso meio. Mas queremos quem trabalhe conosco e não contra nós, quem nos ajude a crescer, quem suba ao nosso lado e não trepando sobre nós, pois não somos escada nem trampolim de ninguém. Não devemos aceitar as manobras interesseiras, a devastação criminosa, os sofismas jurídicos que objetivam unicamente nos prejudicar.”

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

"Cantinho do Emir" - A um ateu


A UM ATEU 
“Para quem crê, as provas da existência de Deus são desnecessárias. Para quem não crê, são inúteis”
Quem crê num Deus Eterno e Onipotente,
Não precisa de provas e argumentos,
Pois O descobre a todos os momentos
Dentro de si, nas coisas, na sofrida gente,
E até no rosto das pessoas fúteis.
A quem não crê, porém, no Criador,
De sua existência as provas são inúteis.
Não perderei meu tempo, então, amigo,
A discutir religião contigo.
Não, não! Tuas razões confusas não receio,
Pois quanto mais blasfemas, tanto mais eu creio!
Dirijo a ti, este pedido:
Se tu não crês, respeites minha Fé!
Não vomites o fel que tens contido
No coração, nos gestos e no olhar até.
Não escarres teu ódio
Sobre a esperança que sustém minh´alma!
Se eu te falei de Deus, foi pura e simplesmente
Porque esqueci de Cristo a frase contundente:
“Não dês aos cães as coisas sacrossantas,
Nem aos porcos atires pérolas divinas,
Pois eles poderão voltar-se enfurecidos,
E espedaçar-te, filho, em meio aos seus grunhidos!”
Então, amigo, deixa-me em paz com Jesus!
Se preferes ficar a espojar-te na lama,
Não impeças que eu viva banhado de Luz
(Emir Bemerguy - 17/06/1971)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Cantinho do Emir" - Só vendo

 SÓ VENDO...
(Melodia do amigo José Wilson Malheiros da Fonseca)

Muito amor você promete,
Mas não dá e pinta o sete,
Bebendo, bebendo...
Você jura que a bebida
Vai sair da sua vida:
Só vendo... Só vendo...

Aproveite enquanto é hora,
Porque eu posso ir embora,
Sem deixar o endereço...
Vou cair no Carnaval!
Veja bem que, afinal,
Só tristezas não mereço.
(Emir Bemerguy - 30/12/1967)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"Cantinho do Emir" - Hino à hipocrisia

 HINO À HIPOCRISIA
Não choremos, irmão, porque na vida
Só prevalece a cínica aparência...
As convulsões da face entristecida
Não despertam piedade nem clemência.

Se, porventura, um dia, lagrimares,
Sózinho hás de chorar, sem um amigo...
Portanto, ri ! Disfarça teus pesares,
E o mundo vil gargalhará contigo !

Sorrir... Sorrir... Eis tudo o que é preciso !
Embora as almas sofram, desoladas,
Cumpre esconder, nas luzes de um sorriso,
Mágoas que não queremos profanadas.

Às custas de perenes sacrifícios,
Agora sei fingir falsa alegria...
Se ao mundo não comovem meus suplícios,
Há de agradar a minha hipocrisia.
(Emir Bemerguy - 15/12/1967)

domingo, 16 de dezembro de 2012

"Cantinho do Emir" - Artigo de Everaldo Martins Filho

Publicado no blog do Jeso Carneiro:
por Everaldo Martins Filho (*)
 
O pescador aguarda pacientemente o peixe. Que a linha trisque, morda o anzol; a presa, a colheita. O poeta procura a palavra. Que se traduza, ilustre, descreva. Amiúde, uma letra.

O pescador tem a nobreza. E uma maleta de instrumentos de pescaria. E de alimentos para isca. Esses falsos, às vezes plásticos, outras metálicos. Ou verdadeiros, como minhoca, massa de pão em bolotas. Carne crua, farofa. Para enganar quem beliscar.

O poeta é amigo do livro e estuda a literatura, a língua. Fruta, galho, folha brasileira; de raiz portuguesa, a árvore. Tem a gramática na prateleira e o dicionário na algibeira. Mas é imenso o poeta, de delicadeza. É sensível, uma realeza. Porque torna terno e eterno a singeleza, o que nem se percebe logo que é belo.

Escreveu no jornal, em O Liberal, anos e anos, coluna dominical. Colaborador. O pescador tem o mar ou o lago, o rio e seu braço, e o infinito garimpo de águas e artes, coisas e louças. Antes do tucunaré, da piracaia. Assar peixe na praia, pescar.

O poeta tem a mãe, dona Didó, e o pai, Seu Vidal. Tem irmãos e irmãs. Tem a sua amada Berenice, odontologista, como ele. E os filhos, as filhas, e as queridas que lhe e os adotaram, como filhas, afilhadas, sobrinhas, amigas que uma vez vieram passar férias e ficaram.

O dr Emir e a Dra Beré. Tem ainda a pena, o poeta, um caderno, a máquina datilográfica. Ou quem sabe um notebook até. Mas gosta também do violão, de suas rimas, sua composição. Uma letra, quantas músicas?

Muitas. Quando lhe vem a inspiração, que não para. Porque amor, amizade, paixão, romance, opinião, não acaba. Curiosidade, conhecimento, ciência, aventura na infância, na juventude, não falta.

Salve Maestro Isoca, Dororó, Miguel Campos e Dom Tiago! Salve a fé do dr Emir, dentista, poeta e pescador, além de seresteiro, contador de causos, sempre de bom humor. Na hora de partir, acho que volta pra sua Belterra de criança, de Bemerguy, a família, a seringa, o Aramanaí. Da estrada oito, da vila mensalista, dos norte-americanos, da torcida pro ABC ou pro União, antigos times de Belterra, do coração. Como o São Francisco, de Santarém, pra quem fez o hino azulino, o Leão.

Lá vai o poeta. Guarda-chuva na mão, por prevenção. Mais fácil sandália alpargatas do que sapato. Camisa pra fora, nada de cinto não. E se pudesse, ao invés de calça, short ou calção. Sai da Floriano Peixoto, endereço de décadas, caminha pra esquerda. Direto pra igreja. Vai rezar na missa, dar a comunhão, na Matriz. Ouvir sermão.
É um homem feliz.

Ou pega à direita, sobe a serra da fortaleza, desce. E atravessa a praça do Barão e de São Sebastião. Vai pegar avium com o tio Lili. Em frente da casa dos pais, na rua do Imperador, no tempo da cheia.

Com um puçá, vai pescar. Depois embarca na montaria, na catraia. Pega o remo. É piloto, o pescador. E trovador, o remador. Navega o poeta. Canoa à vela, no rumo do céu. De Nossa Senhora da Conceição, de Jesus, do Pai. Porque se o mano Emir não estiver no paraíso, diz Ércio Bemerguy (diz isso ou quase isso) estamos todos os humanos fritos. O poeta pescou a eternidade. Paz, enfim. Adeus!

E não se esqueça de dizer o recado, ministro da palavra e da eucaristia. Dos seus, pra Deus. ELE vai ouvi-lo.
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* Santareno, é médico, cantor e compositor. É secretário municipal na gestão da prefeita Maria do Carmo, sua irmã.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

"Cantinho do Emir" - Agarra o homem

Sobre o meu casamento com a Albanira (juíza de Direito da Comarca de Santarém),  meu mano Emir escreveu:


AGARRA O HOMEM!
(Ao Ercio, meu irmão caçula)

O Ercio vai casar!... Não diga, irmão!
Palavra, companheiro! É caso sério.
Até que enfim se entrega o "tremendão",
Sem choro, vela, reza, nem mistério.

E tem que andar direito a vida inteira,
Porque se um dia o cabra desenfreia,
A Doutora não é de brincadeira:
Manda meter o esposo na cadeia!

Mas, coitadinho, tão ralado azar
Acredito que não será preciso,
Pois a Juíza ilustre há de lhe dar,
Além de amor e paz, muito... juízo!

O poeta estava certo! Em clima de paz e amor, eu e Albanira completaremos no próximo dia 25, 42 anos de união conjugal.
Abençoados pelo saudoso bispo Dom Tiago Ryan, casamos, em Santarém, no dia 25 de dezembro de 1970.