Por Nelson Mota -Estadão
Quando completei 60 anos e passei a desfrutar dos privilégios reservados aos idosos em filas de aeroportos e bancos, me consolei pensando que a velhice poderia ter algumas vantagens. Mas não é bem assim. Uma fila com três idosos num balcão de aeroporto pode levar mais tempo do que uma de 12 não idosos ao lado, porque os velhinhos demoram muito, adoram conversar com as atendentes. No banco, é pior ainda, com senhas esquecidas e extratos extraviados.
Quando completei 60 anos e passei a desfrutar dos privilégios reservados aos idosos em filas de aeroportos e bancos, me consolei pensando que a velhice poderia ter algumas vantagens. Mas não é bem assim. Uma fila com três idosos num balcão de aeroporto pode levar mais tempo do que uma de 12 não idosos ao lado, porque os velhinhos demoram muito, adoram conversar com as atendentes. No banco, é pior ainda, com senhas esquecidas e extratos extraviados.
Nesse caso, os idosos mais profissionais escolhem a fila comum, e os
mais bobos e vaidosos também, para não confessar publicamente a idade.
Uma das melhores - e piores - consequências do progresso científico e
da prosperidade econômica foi o aumento espantoso da expectativa de
vida no Brasil. Viver mais é uma ótima notícia, mas, se for para viver
mal, sem saúde, segurança e conforto, é péssima. Como pagar
aposentadorias dignas a milhões de trabalhadores, sem quebrar a
Previdência? Como abrigar e cuidar dessas multidões de novos velhos
pobres? Os indiferentes de hoje são os idosos de amanhã, se chegarem lá.
No Brasil tem bolsa para todo mundo, até as famílias dos presos
recebem a bolsa-bandido, de R$ 860 mensais, certamente mais do que
grande parte dos idosos brasileiros, que trabalharam a vida inteira,
sobreviveram a planos econômicos desastrosos, roubalheiras
incomensuráveis e incompetência dos seus governantes. Muitos
presidiários vivem bem melhor do que idosos pobres, presos em casa e em
asilos.
Civilizações mais antigas, e por isso mais sábias e experientes, como a China e o Japão, valorizam, respeitam e preservam seus velhos justamente por sua
experiência e sabedoria. Eles são valiosos, o Estado investiu muito
dinheiro neles, em sua educação, saúde e formação profissional, e o pior
dos desperdícios é esquecer que eles existem.
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