O ministro da Justiça, Torquato Jardim, reviveu nesta semana, com certas adaptações, o clássico filme O Homem Que Sabia Demais, dirigido por Alfred Hitchcock, em 1934. Jardim virou, na visão de analistas ouvidos por EXAME, o Ministro que Falou Demais.
Em vez de ficar sabendo sem querer de um assassinato, como na história do filme, o ministro falou sem papas na língua sobre o ambiente que cerca vários deles. Mais precisamente, sobre a onda de violência no Rio de Janeiro.
Na terça-feira ele disse ao blog do jornalista Josias de Souza, do UOL, que o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, e o secretário de estado da Segurança Pública, Roberto Sá, não têm controle sobre a Polícia Militar do estado – que, diga-se, passa por uma interminável crise na área de segurança.
Mais: ele afirmou que “comandantes de batalhão são sócios do crime organizado no Rio” e que o comando da PM decorre de acertos entre um deputado estadual e o crime organizado. Para completar, disse que a situação só tem chance de melhorar com a troca de governo.
As reações dos atingidos pelas declarações foram imediatas, e variaram da surpresa à fúria. Jorge Picciani, presidente da Assembleia Legislativa e o deputado estadual com mais poder no estado, disse que o ministro “mente”, é “irresponsável” e “age com má-fé”.
Roberto Sá se disse indignado. O presidente da Câmara dos Deputados, o carioca Rodrigo Maia (DEM), se disse perplexo e na espera de provas vindas de Torquato.
Pezão afirmou que não negocia com criminosos e que vai interpelar judicialmente Jardim esperando que ele prove as acusações.
Nos bastidores, analistas e assessores próximos à cúpula do poder em Brasília dizem que Jardim, se não foi sutil, tampouco está errado.
O descontentamento com a área de segurança pública do Rio de Janeiro é geral entre os ministros que tratam do assunto – além da Justiça, o problema também esbarra na pasta da Defesa, que enviou forças armadas para o estado e é comandada por Raul Jungmann, e no gabinete de Segurança Institucional, chefiado pelo general Sérgio Etchegoyen.
A avaliação comum é que sobram erros e vazamentos nas operações conjuntas feitas entre o Exército e a Polícia Militar do estado.
“Nós já tivemos conversas — ora eu sozinho, ora com o Raul Jungmann e o Sérgio Etchegoyen —, conversas duríssimas com o secretário de Segurança do Estado e com governador. Não tem comando”, disse Jardim na entrevista ao UOL.
Mais a fundo, na lógica de Jardim – compartilhada por políticos e diversos especialistas em segurança pública e no estado – dificilmente o crime tomaria a proporção que tomou no estado sem o apoio de políticos eleitos pelo voto.
“Voltamos à Tropa de Elite 1 e 2”, disse o ministro em entrevista ao jornal O Globo nesta quarta. A ideia da nova entrevista era apaziguar os ânimos, mas a situação só fez piorar.
Até quem costuma tratar dos mesmos temas levantados pelo ministro diz que suas falas foram intempestivas.
“O que ele fala não é novidade. Dizer que existe propina entre tráfico, polícia e política não é novidade. Dizer que existe arrego não é novidade. O que ele diz está no meu relatório da CPI das milícias e o que eles fizeram desde então? Eu entreguei nas mãos do ministro da Justiça da época e dos presidentes da Câmara e do Senado. Ele é um ministro da Justiça, não é um comentarista”, diz o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ).
Ele foi responsável pela CPI da Milícias, em 2008, que terminou com 226 indiciados e levou a prisão de diversos políticos, incluindo um deputado estadual, e também serviu de inspiração para o roteiro dos filmes Tropa de Elite 1 e 2.
Complicou a política
Além de tocar na ferida da política carioca, Jardim complicou a vida do chefe, o presidente Michel Temer. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que já estava tendo embates frequentes com o Planalto cobrou Temer a sair do silêncio. Para ele, evitar dar declarações sobre o assunto deve agravar a crise.
“Se há informação de que o governador não manda mais, que o secretário não manda mais, e que os bandidos estão comandando os batalhões, é preciso tomar uma providência. Ou o governo não sabe o que está falando, ou vai ter que intervir”, disse Maia em entrevista ao jornal O Globo.
Com os problemas da segurança carioca escancarados mais uma vez, passou-se a questionar novamente a possibilidade de uma intervenção estadual no Rio de Janeiro, algo que já estava fora de pauta há algum tempo. Para Maia, o governo federal não tem condições nem políticas, nem fiscais para tanto.
Assim, o fim da crise, como sempre, é imprevisível. Mas o caminho mais curto pode ser um pedido de desculpas. “Abrir a crise foi um erro.
O ministro foi inábil e vai acabar tendo que voltar atrás para evitar maiores problemas”, diz um analista político de Brasília. “Mas o governo colocou ele lá quando precisava de respostas às acusações do Ministério Público justamente pelo seu temperamento forte. Agora, tem que aguentar”.
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