A série "
O Mecanismo"
é uma dramatização inspirada em um conjunto de acontecimentos reais,
apresentada de forma a ilustrar uma tese. Eis a tese, em cinco
enunciados:
a) No Brasil, a corrupção não ocorre esporadicamente; ela é o mecanismo
estruturante da política e da administração pública, um mecanismo que
opera nos municípios, nos estados e no governo federal; no Executivo e
no Legislativo, e também nas cortes judiciais constituídas por
indicações políticas.
b) As campanhas de todos os grandes partidos do Brasil são financiadas
por empresas que trabalham para o Estado. Uma vez eleitos, políticos
desses partidos montam coalizões com base na distribuição de cargos que
auferem controle sobre o orçamento público. Quanto mais poderoso for um
político, maior o quinhão que lhe cabe.
c) O Estado
, assim loteado, contrata as mesmas empresas que financiam as campanhas políticas dos grandes partidos, superfaturando orçamentos.
d) Parte da fatura se transforma em financiamento de campanha para o
próximo ciclo eleitoral, e parte vira caixa dois e propina.
e) O mecanismo não tem ideologia; ele
opera nos governos de esquerda e de direita.
Na série "O Mecanismo", assumimos que esses enunciados são verdadeiros.
Isso é fato ou ficção? O que aconteceria em um país onde o mecanismo
operasse de fato?
No mínimo, três coisas:
1) A polícia e a Procuradoria se deparariam constantemente com casos de corrupção sistêmica.
2) A classe política criaria legislação específica para impedir que as
investigações desses casos gerassem punições para seus membros, pois, na
ausência de legislação assim, o mecanismo não sobreviveria.
3) Se alguma contingência histórica permitisse que uma investigação de
corrupção fosse levada a cabo nesse país, em uma área de orçamento
público significativo, a política como um todo seria implicada na
investigação.
O Brasil satisfaz essas condições?
Não vou perder tempo analisando as duas primeiras. Sabemos que sim. No
que tange à terceira, olhemos para a Lava Jato e a Petrobras.
Que contingencia histórica permitiu que a Lava Jato acontecesse?
Claramente, foi o fato de uma pessoa sem nenhuma experiência política
ter chegado à Presidência. Só pode ter sido por falta de traquejo que
Dilma Rousseff sancionou, em 2013, uma emenda à lei de delações
premiadas que permitiu que acordos de delação fossem celebrados com
doleiros, empreiteiros e administradores públicos.
Foram acordos desse tipo que revelaram um extenso esquema de corrupção
na Petrobras, envolvendo as maiores lideranças políticas do país,
inclusive o patrono político de Dilma, Lula da Silva.
Hoje, a Lava Jato tem US$ 11,5 bilhões em recuperação judicial, sendo R$
3,2 bilhões já bloqueados. Se não há corrupção sistêmica, de onde veio
esse volume de dinheiro?
Ora, é inegável que o mecanismo
opera
no Brasil, e é inegável que os grupos políticos de Temer e de Lula se
beneficiaram dele. Sendo esse o caso, qual o motivo para os violentos e
desonestos
posts que alguns formadores de opinião de esquerda dispararam contra os atores e autores da série "O Mecanismo"?
Para entender sua natureza, precisamos olhar o que ocorreu com a opinião pública
pós-Lava Jato.
Sabendo que O Mecanismo existe, podemos afirmar que:
a) Se a nova lei de delações premiadas tivesse sido sancionada com o
PSDB no poder, os políticos denunciados teriam sido Aécio, Serra e FHC.
Mas, como a lei foi sancionada com PT e PMDB no poder, os políticos
denunciados foram
Palocci, Lula, Cunha, Cabral e Temer.
b) A mídia de direita usou essa contingência histórica para atacar a esquerda, como se a direita não fosse corrupta.
c) O PT usou essa contingência para acusar a Lava Jato de partidarismo,
como se não fosse inevitável que petistas fossem pegos primeiro, dado
que estavam no poder.
Criou-se, assim, um ambiente irracional e polarizado, em que o
dogmatismo ideológico da esquerda radical e o cinismo pragmático da
direita fisiológica passaram a trabalhar juntos para negar o inegável, o
fato de que todas as lideranças políticas dos grandes partidos
brasileiros são corruptas.
Hoje, vemos os formadores de opinião de esquerda e os membros da direita
fisiológica de mãos dadas, pressionando o STF para cancelar a prisão
após condenação em segunda instância. Afinal, para a esquerda isso
garantiria a impunidade de Lula; para a direita, a de Aécio, de Temer,
de Jucá... O mecanismo
, é claro, agradece.
Confesso que esperava mais dos formadores de opinião da esquerda. Pensei
que em algum momento da história fossem acordar do estupor ideológico e
ajudar pessoas de bem na luta contra o mecanismo que opera no mundo
real, em vez de se associar a ele para lutar contra o mecanismo exposto
na
Netflix.