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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

"Cantinho do Emir" - O primeiro avião visto pelos itaitubenses

Itaituba já foi um dos aeroportos com maior movimento de pequenos aviões em todo o mundo, na época áurea do garimpo. No texto abaixo, Emir conta o que aconteceu no dia em que os itaitubenses viram, pela primeira vez, um avião.

O PRIMEIRO AVIÃO VISTO PELOS ITAITUBENSES

Corria o ano de 1942. Embora o mundo estivesse mergulhado nos indizíveis horrores da Segunda Guerra, que se generalizara por quase todo o planeta, a população da pacífica Itaituba nunca, até àquela histórica hora, vira um avião. Havia mesmo quem duvidasse das diárias notícias da B.B.C. de Londres, em que se assegurava terem as mortíferas esquadrilhas da Real Air Force (britânica) ou da Luftwaffe (alemã) dizimado cidades inteiras com umas bombas que hoje pareceriam infantis foguetinhos...


Minha família estava passando férias na simpática sede do imenso município paraense, debruçado sobre a margem esquerda do esplendoroso rio Tapajós. Eu tinha nove anos apenas, mas me recordo muito bem dos estrupícios daquela assombrosa manhã, quando, sem qualquer aviso prévio, sem nada que prevenisse o assustadiço espírito popular, de repente surgiu no céu, roncando como todos os demônios reunidos, um aguerrido “Catalina”! Sua primeira passagem, num vôo baixo sobre a espavorida cidadezinha, determinou uma fulminante e incontrolável sequência de fatos esquisitos, uma desenfreada reação em cadeia: foi como se o apocalíptico fenômeno contribuísse para despertar subitamente adormecidas energias, desemperrando enferrujadas articulações. É, aliás, a velha história: no instante do perigo, suposto ou real, aleijado supera campeões de corrida...

Ao rugido paralisante do bichão, muitos gritaram, caindo de joelhos: - É o fim do mundo!... Salve-se quem puder!...

E se teve, ali, uma desmaiada imagem do que será o Juízo Final. Ninguém sabia, ao certo, para onde correr, hesitando se fechava a casa ou se era mais seguro mergulhar no rio. Inúmeros foram os que se atiraram às águas do jeito em que se encontravam no momento, ocultando-se, a tremer, por entre os esteios do trapiche local; houve ataques de todos os tamanhos, chiliques de todas as potências. Era uma algazarra coletiva como jamais se ouvira antes nem se escutaria de novo, tão cedo!

Minha falecida tia-avó Josefa Macedo - àquela altura uma rija e invicta solteirona de seus quarenta e poucos anos - quando saía, alucinada, pela porta da rua, em direção à igreja onde resolvera morrer, deu de cara com uma vaca que vinha entrando no rumo do quintal, também apavorada com o tremendo escarcéu! Com muita sorte, a piedosa filha de Maria escapou dos chifres do animal, mas caiu desastradamente ao chão, recebendo uns dois ou três pisões que lhe fraturaram uma das pernas. Uma calamidade!... O melhor de tudo, porém, é que o maldito avião, agente de tanta desgraça, nem sequer amerrissou: após umas quatro ou cinco evoluções, seguiu para o norte. Deixara, todavia, atrás de si, rastros indeléveis, balizados por terríveis pragas e tremendas maldições, mas também por ofegantes suspiros de alívio.


Serenados relativamente os tempestuosos ânimos, foram emergindo, da ponta de línguas ferinas, as facetas hilariantes inseridas no bojo de todos os dramas e tragédias, por piores que sejam. E não se podia saber onde terminava a maledicência e tinha início a versão real dos extraordinários eventos.

Garantia-se, por exemplo, que vultos notáveis do lugar se haviam embrenhado na floresta, enquanto uma velha, na confusão, perdera a dentadura. Um moço, caindo de bruços ao saltar para a praia, engolira dois dentes; inimigos se reconciliaram num segundo e, certa de que aquilo era mesmo o fim de tudo, uma distinta matrona se confessara publicamente, aos chorosos berros, pedindo perdão por ter enganado o marido três vezes... A coisa fora, de fato, mais séria do que se presumia...

Quanto a mim... Bem, infelizmente não posso acrescentar mais detalhes, porque passei o tempo todo escondido embaixo de uma enorme cama de ferro de minha avó Chiquinha Bemerguy. Naquele refúgio eu me considerei seguro, enquanto, lá fora, o mundo vinha abaixo...­

(Emir Bemerguy - Em seu livro de memórias "Enquanto eu me lembro") 

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