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sábado, 16 de junho de 2018

Senhores pais, reflitam.

Garimpando nos escritos (de 1966) do meu mano Emir, encontrei esta jóia, para reflexão:
PAIS E FILHOS
“Ter filhos não significa apenas havê-los gerado, dar-lhes de comer e de vestir, matriculá-los em bons colégios, proporcionando-lhes todo o conforto material que o dinheiro pode comprar. Ter filhos é ainda muito mais que isso: é prestar-lhes a máxima assistência espiritual e moral, é ampará-los em todos os transes da vida e, sobretudo, formá-los para que não se deformem, para que não se transformem naquilo que não desejamos, ou seja, em cidadãos nocivos à sociedade.

Os métodos que os pais adotam para impor sua autoridade sobre os filhos, tem uma decisiva influência sobre a educação dos mesmos. Tanto erram aqueles que proporcionam liberdade total aos filhos, como aqueles que se transformam em tiranos dentro de casa, tal o rigor de seus sistemas educacionais. Assim, chega-se à conclusão de que o método ideal para se merecer o respeito e a confiança dos filhos, situa-se, como sempre, entre os dois extremos: nem a liberdade total, preconizada por certos educadores modernos, nem a tirania”, que ainda encontra tantos adeptos nos dias atuais.

Como pais, não podemos, comodamente, fugir às nossas responsabilidades, culpando os jovens por seus desregramentos. Antes de nos envergonharmos deles, lembremos que nossos filhos precisam, e muito, de ajuda, de amparo e de muito amor. Se nossos filhos vencem na vida, se brilham nos estudos ou na profissão, achamos que a nós eles devem as suas vitórias, a nós cabe a maior parte das glórias conquistadas. É justo, é humano agirmos assim. Entretanto, se os moços fracassam, se são delinqüentes, uns inúteis, uns derrotados, entendemos, quase sempre, que a culpa é somente deles, que nenhuma responsabilidade nos pode ser atribuída pelos seus insucessos. Não e não. Se participamos de seus triunfos, compartilhemos as suas derrotas que são nossas também e, doloroso é afirmar, quantas vezes não somos os únicos e exclusivos responsáveis por elas. Orgulhemo-nos das vitórias mas saibamos, também, responder pelos erros de nossos filhos, pois as suas glórias ou os seus fracassos são uma decorrência natural da formação que lhes demos.”

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

5 anos sem o meu mano Emir

Poeta, escritor e professor muito admirado, muito amado, Emir Bemerguy faleceu no dia 13 de novembro de 2012. Sinto muita falta de ti, meu mano querido.
Sobre sua poesia e sua vida,  veja aqui >Cantinho do Emir

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Enquanto eu me lembro

Consegui comprar no Instituto de Artes do Pará - IAP, um exemplar do livro "Enquanto eu me lembro", de autoria do meu saudoso irmão Emir Bemerguy. Após a leitura, tecerei comentários sobre o conteúdo da obra.
Leia mais aqui >Cantinho do Emir

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Prêmio IAP de Artes Literárias 2013 divulga resultado

Um dos mais aguardados prêmios de literatura do Pará, o Prêmio IAP de Artes Literárias premiou um escritor santareno: o meu saudoso mano Emir Hermes da Cunha Bemerguy foi o ganhador do PRÊMIO JOSÉ DE CAMPOS RIBEIRO, com o livro ‘’ENQUANTO EU ME LEMBRO’’. A obra será lançada em 2014 pelo IAP, junto com as demais vencedoras em outras categorias. Emir faleceu em novembro de 2012.
As mais de 60 obras inscritas foram selecionadas pelo Conselho Diretor do Instituto formado por Fábio Jorge Carvalho de Sousa (Presidente do IAP), Lutfala de Castro Bitar, Jorge Leal Eiró da Silva, Suely Melo de Castro Menezes e José Afonso Medeiros Souza (Membros).

Eu e Emir
Leia mais aqui >Cantinho do Emir

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

"Cantinho do Emir" - Os Encantos de Santarém


  
OS ENCANTOS DE SANTARÉM
Um desejo muito antigo
Eu guardava só comigo,
Jamais falei a ninguém:
Era compor um poema
Que tivesse como tema
A querida SANTARÉM.

Se dispunha de ocasião,
Faltava-me inspiração
E os tais versos não saíam...
Fiz algumas tentativas
Enfadonhas, cansativas,
Que só me desiludiam.

De qualquer modo, começo,
E que me inspire a Deus peço
Em comovida oração.
Quero ao papel transportar
A ternura singular
Que trago no coração.

Tenho visto muita gente
Que aqui chega, de repente,
Dizendo que não demora,
E fica tão fascinada
Por nossa terra encantada
Que não quer mais ir embora.

Mas qual será o motivo
Desse fascínio intensivo
Que se exerce sobre nós?
É a beleza da cidade,
A grande hospitalidade
Do povo do Tapajós!

São as praias, as morenas,
Os arraiais, as novenas,
As festas, as tradições!
São as conversas amigas,
Sem rancores, sem intrigas,
Que cativam corações.

É este CÉU, são as MATAS,
O RIO AZUL, as CASCATAS,
O excesso de luz e Sol
É o CREPÚSCULO BONITO
Com seu encanto infinito,
É a LINDEZA DO ARREBOL!

E que dizer desta LUA
Que ilumina a minha rua
Com seus raios cor de prata?
Como cantar a poesia
Que comove, que extasia,
Das noites de serenata?

Ninguém tem, como nós temos,
Essas canções que devemos
Ao ISOCA e a seu piano,
Melodias inspiradas,
Com paixão interpretadas
Por EXPEDITO TOSCANO.

E nas noites de luar,
Pelas ruas a cantar
Tristes valsas com carinho,
Pode-se ouvir ternamente
A voz bela e diferente
Do boêmio MACHADINHO.

Nos festejos de São João
Ninguém perde ocasião
De assistir um boi-bumbá,
De tomar banho cheiroso
Pra conjurar o Tinhoso
E de beber Tarubá.

Temos lendas fascinantes,
Estórias impressionantes
De BOTO e de CURUPIRA,
Da COBRA GRANDE terrível,
Do UIRAPURU, lenda incrível,
Que ninguém diz ser mentira.

Há conversas de assombrar
Contadas pra amedrontar
Crianças de toda idade:
Contos d'almas do outro mundo,
De índio e bicho do fundo,
De mandinga, de maldade.

Nas LETRAS e na PINTURA,
Na MÚSICA faz figura
A gente de Santarém.
Nos ESPORTES, na CIÊNCIA,
Com brilho, com inteligência,
Sempre se destaca alguém.

Santarém dos DIAS FORMOSOS,
Dos CARROS-DE-BOIS morosos,
Do PAUMARI e da CACHAÇA,
Do FUTEBOL consagrado
Do “SÃO RAIMUNDO” afamado,
Do “SÃO FRANCISCO” de raça!

Ó Santarém das modinhas,
Das rezas, das ladainhas,
De tanta superstição!
Teu hino, cara cidade,
- “CANÇÃO DA MINHA SAUDADE”
Tem beleza de oração!

Já tiveste ZÉ AGOSTINHO,
JOAQUIM TOSCANO e seu pinho,
Suas serestas ao luar...
E houve aqui nesta zona
O violão bom de JOÃO FONA
Que eu hei de sempre lembrar.

Santarém, tu tens ALDEIA,
PRAINHA e COROA DE AREIA,
Alvinha como ela só...
Tens TRAPICHE reforçado,
AEROPORTO e MERCADO,
CAISINHO e “VILA ARIGÓ”!...

O “CENTRO RECREATIVO”,
O “BAR MASCOTE” festivo,
A velha USINA DE LUZ,
A MATRIZ de tantas preces
Feitas por ti, que as mereces,
À Santa Mãe de Jesus.

O CASTELO, o SEMINÁRIO,
A PRAÇA DO CENTENÁRIO,
Esse logradouro chique;
A “FORTALEZA”, engraçada,
Sem canhões e sem mais nada
Que seu nome justifique...

Ali vejo a PREFEITURA,
Os CORREIOS, PRELATURA,
E essa PRAÇA DAS MISSÕES.
Nossa “RÁDIO EDUCADORA”
Tem sua força propulsora
No verbo de OSMAR SIMÕES.

Tens o NINITO VELOSO,
PAULO RODRIGUES famoso,
Com talento como quê!
PADRE MANUEL, o poeta,
Primorosíssimo esteta,
E tens... ZECA BBC!

Ah! Teus gráceis APELIDOS
Originais e queridos '
São famosos por aí.
QUICÉ, XIXITO, SATUCA
POJÓ, MINGOTE, BILUCA:
DORORÓ, MAMÁ, GIGI!

Sei de planos colossais
Epopéia em matagais!
Quem viver, porém, verá
Essa estrada faraônica
- A vital TRANSAMAZÔNICA
E a SANTARÉM-CUIABÁ!

Vê-se aqui muitocolégio
Saber não e privilégio
De ninguém (ó coisa rara!):
O “BATISTA”, o “ESTADUAL”,
Nossa “ESCOLA COMERCIAL”
“DOM AMANDO” e “SANTA CLARA”.

Raras coisas nesta vida
São gostosas como a ida
Em noites de Lua cheia
A “VERA PAZ” afamada
Pra comer uma peixada
Sobre o alvo chão de areia.

E se há um violão
Ponteando uma canção
Como fundo musical,
A felicidade é tanta
Que a gente até se espanta,
Pensando não ser real...

Olhar o “ENCONTRO DAS ÁGUAS”
É remédio para as mágoas
Do coração espantar.
Um mergulho em Cambuquira
Tristezas d'alma retira
E pro corpo é salutar.

De tempo não mais disponho
Pra falar (fico tristonho)
Na “SALVAÇÃO”, no “IRURÁ”,
Na “MARIA JOSÉ”, essa praia
Onde se faz Piracaia,
No MAPIRI, no MAICÁ.

SANTARÉM, te quero tanto
Que neste modesto canto
Não pude bem expressar
Todo o afeto comovente
Que em meu peito está presente,
Cada vez mais a aumentar.

E, no final desta ode,
Peço a Deus - sei que Ele pode
Escutar minha oração:
Abençoai nossa gente,
Conservai-a sempre crente
Na VIRGEM DA CONCEIÇÃO!

Por Emir Bemerguy, em 27/9/1966.
Leia mais aqui >Cantinho do Emir

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Cantinho do Emir: Vitória Régia

Na foto acima, tirada em 1988, Emir na sua canoa "Maricota", na Ponta Negra, em meio às vitórias-régias. Sobre esta planta, ele fez o poema abaixo em 1975, que foi musicado por Vicente Fonseca, compositor santareno, filho do maestro Isoca:
A LENDA DA VITÓRIA-RÉGIA
Música de Vicente Fonseca


Arari foi a índia escultural que, um dia,
À montanha mais alta decidiu subir:
Sonhadora e formosa, a jovem pretendia
As estrelas e a Lua entre as mãos sentir.
REFRÃO
Tapuia bonita,
Ó doce Arari,
Não ganhas a Lua...
Coitada de ti!

Não conseguindo, olhou o lago ao pé do monte,
A refletir do céu encantadora imagem.
De novo esperançosa, do luar fez ponte,
Saltando em pleno abismo, com fatal coragem!

Conta a lenda que a Lua soluçou, de pena...
Mas a linda Arari, Tupã tirou do fundo,
Fazendo a maravilha dessa noite amena,
Pois a Vitória-régia apareceu no mundo!

E agora, quando o vento assanha os mansos lagos,
Alegres, eles dançam (quanta vez eu vi!):
Da brisa respondendo aos sensuais afagos,
Estão brincando a Lua, os astros e Arari!
Fonte: Blog Saudade Perfumada
Leia mais aqui >Cantinho do Emir
E aqui >Saudade Perfumada

sábado, 3 de agosto de 2013

Cantinho do Emir: Aquarela Mocoronga

 AQUARELA MOCORONGA

Ó gracil Santarém das aquarelas,
Predileto modelo de pintores!
Tens tanta luz nas alvoradas belas!
Que desperdício singular de cores!

Ó Santarém bonita dos luares
Propícios aos queixumes dos violões,
Quando boêmios cantam seus pesares
 Enternecendo amantes corações!

Ó Santarém piedosa dos rosários,
Das procissões, novenas, penitências!
Tu tens capelas, templos, santuários
Onde invocas de Deus as indulgências.

Ó Santarém gostosas das peixadas
Monumentais que a gente saboreia
Na pá do remo, em noites estreladas,
Tendo por mesa o infindo chão de areia!...

Ó minha Santarém, tu me apaixonas!
Que maravilha fico eu vendo, a sós:
O beijo amorenado do Amazonas
Na face verde-azul do Tapajós!...
 (Emir Bemerguy - março/1967)

Nota deste blog: Emir deixou uma quantidade muito grande de material escrito. Nos meus arquivos, encontrei pouca coisa da vasta obra deste meu querido irmão, e quase tudo já postei neste espaço que dediquei à preservação da sua memória. Se porventura eu conseguir que os seus filhos disponibilizem cópias de poemas, crônicas, etc. para este blog, darei continuidade a este "Cantinho do Emir".
Leia mais aqui >Cantinho do Emir

segunda-feira, 1 de julho de 2013

EMIR BEMERGUY - UM SÁBIO!

Texto de Vicente José Malheiros da Fonseca

EMIR HERMES BEMERGUY (filho de Vidal Macedo Bemerguy e Raimunda Ribatejo Bemerguy) nasceu no Vale do Tapajós (Fordlândia, Pará), em 4 de março de 1933 e reside em Santarém há mais de meio século. Começou a estudar em Belterra (PA) e prosseguiu os estudos no Colégio Dom Amando (Santarém) e no Colégio Nazaré (Belém). Graduou-se em Odontologia (1956) e exerceu a profissão por 30 anos. Em 1958, casou-se com Berenice Maria de Souza Bemerguy – sua colega de turma na Universidade Federal do Pará – com quem teve seis filhos: Emir Filho, Vidal Antônio, Telma Suely (falecida), Márcia Regina, Lúcio Ércio e Lila Rosa, além de Socorro (adotiva), que lhes deram os netos Vitor, Maitê, Rafael, Marcos, Tiago, Telma, Mateus, Mauri e Maria Clara. Durante 25 anos exerceu o magistério nos Colégios Santa Clara e Dom Amando, ministrando aulas de Física, Química, Biologia, Higiene, Ciências Naturais, Puericultura, Francês e Português; e também foi professor de Estudos dos Problemas Brasileiros nas Faculdades Integradas do Tapajós (FIT), em Santarém. Seresteiro, tocador de violão, apreciador da boa música e compositor, manteve por vários anos o programa “Poemas e Canções”, na Rádio Rural de Santarém. Dedicou-se ainda à literatura, como escritor e poeta. Escreveu inúmeras crônicas, contos, romances e possui mais de vinte livros de prosas e poesias (cerca de 700 poemas), quase todos inéditos. É autor dos livros “Aquarela Mocoronga” (1984), coletânea de poemas sobre a magia, as lendas, a natureza e aspectos humanos da vida santarena; “Diário de um Convertido” (2000); “Momentos Poéticos” (2007) e “Santarenices – Coisas de Santarém” (2010), estes últimos editados pelo Instituto Cultural Boanerges Sena e apoio da Prefeitura Municipal de Santarém (Governo Maria do Carmo Martins Lima). O seu quarto livro reúne crônicas escritas originariamente para o antigo Jornal de Santarém, no período de 1966 a 1998, inclusive os perfis de diversas personalidades da história da cidade, como Aloysio Melo, Osmar Simões, Francisco Coimbra Lobato, Wilson Fonseca (maestro Isoca, meu pai), Carlos Meschede, Everaldo Martins, Manoel de Jesus Moraes, Zeca BBC, Vicente Malheiros (meu avô materno) e outros. Foi organizador da “Antologia dos Poetas Santarenos”, edição comemorativa dos 337 anos de Fundação de Santarém (1661-1998), Prefeitura Municipal de Santarém – Coordenadoria de Cultura, Gráfica e Editora Tiagão, 1998. Há 30 anos escreve em jornais de Santarém (“Jornal do Baixo Amazonas”, “Hiléia Amazônica”, “Tapajós” e outros). Publicou artigos dominicais (mais de 700) no jornal “O Liberal”, de Belém, desde 1977, e foi colaborador dos Diários Associados.

É autor de uma dezena de composições próprias e de mais de uma centena de letras de músicas compostas por Wilson Fonseca (maestro Isoca), inclusive hinos de diversas instituições, como o Hino da Festa de N. S. da Conceição (1971). Em 1993, recebeu o “Troféu Felisbelo Sussuarana”, prêmio máximo da literatura santarena, concedido pela Associação de Poetas e Escritores do Oeste do Pará. Por muitos anos coordenou a comissão organizadora da Revista do Programa da Festa de N. S. da Conceição, onde escreveu numerosos artigos.

Artigo especial para o Programa da Festa de N. S. da Conceição, Santarém (PA), 2010. Desembargador Federal do Trabalho, Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA) e Compositor.
É membro efetivo e vitalício da Academia de Letras e Artes de Santarém, na Cadeira nº 38, cujo patrono é o Bispo Dom Tiago Ryan, em sucessão ao Bispo Dom Lino Vombommel.
O poeta Emir Bemerguy é parceiro musical de três gerações da família Fonseca. De parceria com meu avô José Agostinho da Fonseca (1886-1945), Emir escreveu, em 1970, a letra da Canção do Forasteiro (samba) – adaptação da música O Relógio (parte integrante da revista teatral “Eu Vou Telegrafar”, de Felisbelo Sussuarana, de 1925); e a letra, em 1986, do schottisch Idílio do Infinito (1906), a primeira composição musical escrita em Santarém (PA).


Aliás, a Canção do Forasteiro foi cantada por mim, acompanhado do Conjunto “Os Mocorongos”, na gravação do LP “Santarém do Meu Coração” (6ª faixa do lado B), que registra músicas executadas na memorável “Semana de Santarém”, realizada no Theatro da Paz, em Belém (PA), em outubro de 1972. Confira no livro “José Agostinho da Fonseca – O Músico-Poeta” (Wilmar Dias da Fonseca), Imprensa Oficial do Estado do Pará, 1978, Belém/Santarém (PA), p. 152. Eram integrantes do Conjunto “Os Mocorongos”: Wilson Fonseca (piano), José Agostinho da Fonseca Neto (órgão e contrabaixo), Vicente Fonseca (violão), Djalma Vasconcelos (bateria) e Conceição Fonseca (ritmista).

E quanto ao Idílio do Infinito, transcrevo o registro que fiz na biografia que venho elaborando sobre meu avô José Agostinho da Fonseca: “A sua primeira composição, o schottish Idílio do Infinito (1906), foi executada pela Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, na Casa da Cultura, em Santarém (PA), em 17 de novembro de 2006, com arranjo orquestral elaborado por seu neto Vicente José Malheiros da Fonseca, especialmente escrito para comemorar o centenário desta peça, considerada a primeira música escrita na Pérola do Tapajós, durante o lançamento da coletânea ‘Meu Baú Mocorongo’ (Wilson Fonseca – Maestro Isoca), editada pelo Governo do Estado do Pará, data em que também ocorreu a inauguração, pela Infraero, do busto do seu filho no Aeroporto de Santarém (PA) – ‘Maestro Wilson Fonseca’ (Lei Federal nº 11.338, de 03.08.2006 – DOU 04.08.2006)”.

Emir Bemerguy escreveu diversos textos poéticos para músicas compostas por meu pai Wilson Fonseca (1912-2002), que se tornaram clássicos do cancioneiro santareno: Adeus, Vera-Paz; Cabocla Tapajônia; Canção da Vera-Paz; Curupira; Feira Santarena; Hino da Festa de N. S. da Conceição; Peixada na Praia; Quando Canta o Uirapuru; Saudade da Seresta; Sonho Predileto; Triunfal Consagração; Hino do Colégio Santa Clara e tantas outras.
Confrade na Academia de Letras e Artes de Santarém, Emir Bemerguy é também meu parceiro em 15 obras musicais, como autor de belos textos poéticos. A parceria se iniciou com a música Queixumes do Fim, que completou, em 2008, 40 anos. Na ocasião, universitário de Direito, eu estava em Santarém passando férias. Em seguida, veio a Missa Popular, tocada nas missas celebradas pelo Padre Raul Tavares de Sousa, na Casa da Juventude (onde morei quando universitário), em Belém. Foi cantada na missa de Colação de Grau das Pedagogistas de 1970, no Colégio Santa Clara, de Santarém, de que faziam parte minha irmã Maria da Conceição e Maria Zuíla Lima Dutra, colega de magistratura trabalhista e esposa do jornalista Manuel Dutra. [Compus outras peças sacras, como a Ave Maria (dedicada ao Papa Bento XVI); Cânticos em homenagem a Santíssima Trindade (letra: Padre Ronaldo Menezes); e Maria – Ave Maria dos Migrantes (Coro a 4 vozes mistas e Órgão), vencedora no Concurso Nacional de Composição de Música Sacra (2010), promovido pela Paróquia Nossa Senhora de Boa Viagem – Igreja Matriz de São Bernardo do Campo (SP)].
O Hino do Coral de Santarém tem parceria tríplice: Emir, Wilson Fonseca e eu. Fiz a introdução e a 1ª parte. Meu pai, o estribilho e o arranjo para coro. A Praça da Matriz é a quarta música de nossa parceria. Depois vieram o samba Jóia de Deus, o Hino das Olimpíadas do Colégio Dom Amando, Lenda da Vitória-Régia, Lenda da Mãe D’Água (estas duas cantadas pelo Coro Carlos Gomes, em Belém, sob regência da maestrina Maria Antônia Jimenez), a valsa Eliane (para os 15 anos da homenageada, filha de Wilmar Frazão, no Centro Recreativo), o samba-enredo Tempos de Criança (encomendado pelo artesão e cantor Laurimar Leal, dirigente da Escola de Samba Ases do Samba, para o carnaval santareno de 1978), o Hino ao Centenário do Theatro da Paz (dedicado ao maestro Waldemar Henrique, a quem entreguei a partitura para canto e piano; depois escrevi outros arranjos, inclusive para orquestra sinfônica) e a canção Saudade Perfumada (que subintitulei de Elegia para Telminha, sua filha).

Falemos um pouco da Praça da Matriz. Em 1975, o poeta Emir Bemerguy enviou-me um belo soneto, escrito em 1970. Seu título: Praça da Matriz. Compus então a marcha-rancho, gravada pelo cantor Ray Brito e o Conjunto Os Hippies (de Odilson Matos), onde tocava o meu irmão José Agostinho (Tinho). A música tornou-se muito conhecida em Santarém. Meu pai (Isoca) elaborou um arranjo, tocado pela Banda (atual Filarmônica) Municipal Prof. Agostinho. Desse arranjo sobraram apenas as partes individuais de alguns instrumentos, segundo me disse o primo João Paulo, filho de Wilde Fonseca (tio Dororó), dirigente da banda. Resolvi fazer outro arranjo para orquestra, ainda inédito. Elaborei diversos arranjos para a Praça da Matriz, um deles gravado em CD pelo Coral da FIT-Faculdades Integradas do Tapajós, sob regência da maestrina Ádrea Taiana Figueira Lopes.

Por ocasião dos 348 anos da fundação da Pérola do Tapajós (22.06.2009), como parte integrante da programação do Projeto Produção de Réplicas e Catalogação dos Prédios Históricos da cidade, realizado pelas Faculdades Integradas do Tapajós, foi afixada uma placa, na Praça da Matriz, que contém a letra e a partitura musical da Praça da Matriz, cantada pelo Coral da FIT. Não pude ir a Santarém, mas enviei um texto de agradecimento. Na verdade, a obra musical constitui homenagem do poeta e do compositor à secular Praça da Matriz de Santarém.

Na década de 70, já magistrado, toquei a Praça da Matriz na Banda Prof. José Agostinho, no coreto da praça, durante a Festa de N. S. da Conceição, em companhia de pedreiro, alfaiate, tratorista, biscateiro, pescador e outros operários humildes. Todavia, naquele grupo musical não estava o magistrado, mas o executante de sax-horn e barítono, todos sob a direção de meu pai e meu tio Dororó. Que saudade daquele tempo: ‘pedaços coloridos de uma vida’., como diz o belo poema de Emir. Naquela época, Emir me escreveu uma cartinha em que alertava: “Diz o Eclesiastes que, na vida ‘chega a hora para tudo’.. Percebo, encantado, que soou, nos relógios de Deus, o momento de o jovem e talentoso amigo ser acometido por uma bendita, crescente e incurável febre criativa, em termos de música! Não tome qualquer chá, nem se sujeite a benzeduras: deixe que a moléstia o envolva inteiramente, para o deleite de todos nós! ‘Praça da Matriz’.. Linda marcha-rancho!” Digo eu: lindo poema! Quando me recuperava de uma intervenção cirúrgica, em agosto de 2000, Presidente do TRT-8ª Região, duas coisas eu fazia todos os dias, em convalescência: a leitura do livro “Diário de um Convertido”, de Emir Bemerguy; e a audição da 9ª Sinfonia, de Beethoven, uma de minhas músicas preferidas (especialmente, o maravilhoso Adágio), agradáveis companhias, que certamente ajudaram na minha cura. Salve o grande poeta e parceiro Emir Bemerguy. Um sábio!
--------------------------------------------
VICENTE JOSÉ MALHEIROS DA FONSECA é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região, músico e compositor. É filho do saudoso Maestro Wilson Fonseca, o Isoca.
Leia mais aqui >Cantinho do Emir
E aqui >Saudade Perfumada

domingo, 2 de junho de 2013

Memória Santarena

Eu e o meu saudoso e querido mano Emir
"EMIR BEMERGUY, pescador de almas e tucunarés" é o título do 4º volume da série "Memória Santarena", que o Instituto Cultural Boanerges Sena vai lançar neste mês. O prefácio desta obra é de autoria do jornalista Paulo Bemerguy, sobrinho de Emir. Poeta e escritor, Emir Bemerguy faleceu ano passado. Fazem parte da coleção: "Zeca, o BBC de Santarém"; "Dom Tiago, o missionário do Tapajós" e "Isoca, idílio do Infinito".

Os livros poderão ser adquiridos através dos seguintes telefones: (93) 3523-3690 e (93) 9975-2295.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Cantinho do Emir: Missa Mocoronga


MISSA MOCORONGA
Letra: Emir Bemerguy
Melodias: Wilson Fonseca (Isoca) e José Agostinho da Fonseca.

I – ENTRADA – melodia de “Um Poema de Amor”

Tu,
Que do mundo és a Luz,
Este povo fiel
Ilumina, ó Jesus!
De mãos postas, em prece,
Os teus filhos e então
Nossas faltas esquece.
Oh! Quão sublime é saber que no altar 
Deus logo mais vem morar!
Sim,
Encontrei no Sewnhor
Esta íntima paz,
Este anseio de amor.

II – HINO DE MEDITAÇAO – melodia de “Terra Querida”

A palavra refletida
Traz alento para a vida,
Pois procede do Senhor.
Deus nos dá nesta mensagem
Novas doses de coragem
Sobre os aguilhões da dor.

Que amargura o cristão sente
Quando está do Pai ausente!
Dá vontade de chorar...
Só com Cristo, o irmão Divino,
O futuro é cristalino
É mais fácil caminhar.

Quando o mundo nos magoa,
Sealguém padece à toa,
Eis na Bíblia a solução,
Pois contém a frase exata
Para a angústia que maltrata,
Traz o alívio do perdão.

As Sagradas Escrituras
São eternas luzes puras
Que encandeiam fariseus,
Pois sabemos que é preciso
Para ir ao paraíso
Cumprir bem a Lei de Deus.
 
III – OFERTÓRIO – melodia da “Canção da Saudade”

Tudo é dádiva celeste!
Ó Divina Providência,
Que prodígios Tu fizeste!
Quanta generosidade.
O Universo é um serviço
Para o bem da humanidade.
Nós queremos neste instante
Ofertar-Te, ó Pai querido,
Numa prece emocionante,
Toda a gratidão que existe
Nos espíritos daqueles que na cruz Tu redimiste.

No holocausto do Ofertório
Elevamos na patena
Nossas súplicas a Deus.

Neste mundo transitório
Que mentindo nos acena,
Guarde sempre os Seus!

Pão e vinho consagrados
Nos afastem dos pecados
Hoje, sempre, até o fim.
E por toda a eternidade
Te louvemos, ó Bondade,
A sorrir, cantando assim.

 IV – COMUNHÃO – melodia da “Canção de minha saudade”

Somos todos peregrinos,
Irmanados nos destinos
E na Fé que não se esvai
Comungamos decididos
A viver no mundo unidos,
De mãos dadas, rumo ao Pai.
Deus quer ver nesta cidade
Uma só comunidade,
Vinculada pelo amor.
Como irmãos continuemos
A servir-nos e estaremos
Alegrando ao Redentor.

Ó Sublime Eucaristia
É em Ti que principia
A coragem do cristão
Pois da vida nas batalhas
Lá nas almas Tu trabalhas,
Pondo fé, amor, perdão.
És o Deus de nossa gente,
Invisível, mas presente
Nessa Hóstia Pequenina
E no teu poder tão vário,
Cada peito é um sacrário
A conter a Luz Divina.

Tantos mundos Tu criaste,
Mas não há nenhum que baste
Para bem Te agasalhar,
Porque toda a Natureza
Nada vale ante a grandeza
Do meu Deus que está no altar.
Eis, no entanto, a maravilha
Que na Cristandade brilha
Com legítimo clarão:
És maior que o Cosmo inteiro,
Porém ficas prisioneiro
De um pequeno coração!

 V – HINO FINAL – melodia da “Canção da Vera Paz”

Quando a missa chega ao fim
Eu percebo dentro de mim
Um impulso que me diz:
Vai ao mundo, parte agora

Vai agir com Deus lá fora
E será muito feliz!

Estribilho:

Vou levar por aí                   ) Bis
A paz que encontrei aqui.   ) Bis

Meu irmão de mim precisa,
A tristeza não avisa:
Olha a lágrima que cai.
Sou um bom cristão, de fato,
Quando aceito, cumpro e acato
Toda a Lei de amor do Pai.

Estribilho:

Vou levar por aí                   ) Bis
A paz que encontrei aqui.   ) Bis

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sábado, 6 de abril de 2013

Cantinho do Emir: Correção gramatical

Emir Bemerguy foi professor de Português durante muitos anos, e sempre teve muito cuidado com a correção gramatical de seus textos. Praticamente todos os livros que tinha em sua biblioteca têm anotações corrigindo erros gramaticais ou de revisão. Quando ele escrevia para o jornal "O Liberal", mandava os artigos por fax e, ao receber o jornal, no domingo, ficava muito irritado quando encontrava erros no seu artigo causados pela digitação feita no jornal. Na imagem abaixo, uma cópia do certificado que recebeu em 1990 ao ganhar o primeiro lugar em concurso de trovas da União Brasileira de Trovadores. Ao perceber que sua trova havia sido transcrita de forma incorreta no documento, ali mesmo Emir externou sua irritação, escrevendo "Vão aprender a copiar!..."

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sexta-feira, 15 de março de 2013

Cantinho do Emir: Terra Ferida

TERRA FERIDA (Paródia de "TERRA QUERIDA")
Minha terra tão ferida,
Devastada, poluída,
Santarém da minha dor!
Já não tens qualquer beleza:
Tua pobre natureza
Não inspira e traz rancor.
Só revolta a gente sente
Ao olhar, aí na frente,
Com uma raiva de espumar,
O ex-rio cristalino
Que o garimpo assassino
Agrediu e vai matar!

Refrão:
Já nem mais a Lua cheia
Faz brilhar a suja areia
Da chorosa “Salvação”...
Não se ouve serenata...
Some o verde... Geme a mata...
Silencia o violão...
Nem a noite mais serena
De minh'alma arranca a pena
E põe nela qualquer paz.
Já não vejo teus encantos:
E os tiveste tantos, tantos!...
Que amargura isso me traz!...

Como amantes adoidados,
Te namoram os drogados
Amazonas, Tapajós...
Venenosos no caminho,
Põem mercúrio em teu corpinho,
E te dão sujeira atroz!
Mortos-vivos, os dois rios
Vão mancando, lentos, frios,
Como velho a resmungar...
Santarém, beijo-te a fronte:
Linda ou feia, és a fonte
Do meu triste versejar!...

(Emir Bemerguy, em 09/02/1990)


domingo, 10 de março de 2013

"Cantinho do Emir" - A saudade que passa de bubuia


De Emir Bemerguy Filho:
"No dia 04/03/2013, quando meu pai completaria 80 anos se estivesse vivo, a Academia de Letras e Artes de Santarém prestou-lhe uma homenagem. Como parte da programação, minha irmã Lila Bemerguy produziu um vídeo, a partir de textos, fotos e áudios do arquivo de papai. No vídeo, ele canta "Noite do meu bem", segundo ele a música preferida da mamãe. Depois canta A Volta do Boêmio, e muda a letra numa parte dizendo "Meu Emir você pode partir...". A gravação foi feita em casa, num encontro de casais, com a presença do Isoca, Rosilda e Wilson Almeida tocando violino, além de outros. Depois tem Terra Querida, com ele fazendo o solo para o coral de Santarém."

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Cantinho do Emir - Turbilhão de Flores

 TURBILHÃO DE FLORES
À Maria de Jesus Malheiros da Fonseca, por ocasião de seus 15 anos.
Melodia de Wilson Fonseca (ISOCA), pai da aniversariante.

Aos acordes da valsa expressiva,
Bailam sonhos e tudo é mais lindo!
Quinze anos! O amor é conviva
Que desponta nos olhos, sorrindo...
Na magia do instante que passa,
Brilham luzes nas almas felizes.
Nas palavras, nos gestos há graça,
E o futuro tem róseos matizes.

Deus permita, graciosa estreante
Nas ribaltas diversas da vida
Que somente apareças diante
Da platéia por ti preferida.
E no mundo, por onde tu fores,
Sejam fáceis teus muitos caminhos.
Vivas sempre cercada de flores,
Só de rosas, e sem os espinhos!

(Emir Bemerguy - 03/06/1972)
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Cantinho do Emir - Fordlândia

Emir nasceu no dia 04 de março de 1933, em Fordlândia, onde seu pai (Vidal) trabalhava na Companhia Ford. Este é o primeiro capítulo do livro de memórias de Emir, onde ele fala sobre a criação do local.
FORDLÂNDIA
1928. A Amazônia inteira se alvoroçava ante a realidade que tantas esperanças vinha semear em almas afeitas a uma enervante rotina - eterno dia seguinte da mesma coisa, frustrante véspera de coisa nenhuma. Em toda a vastíssima circunscrição geográfica - de Santarém a Itaituba, de Cametá a Porto Velho - quase nada havia, em termos de empregos para os moços, além de escassas vagas atrás de poeirentos balcões. Mas, por que tanta efusão de entusiasmo?

Henry Ford, o magnata do automóvel, fundara, à margem direita do rio Tapajós, no Pará, um núcleo experimental que estava atraindo gente dos mais longínquos pontos do país: Fordlândia, no município de Itaituba. O ricaço americano conseguira, do governo Washington Luís, por um prazo contratual de noventa e nove anos prorrogáveis, a concessão de duas imensas glebas. E, através de cientistas prodigamente pagos (ele mesmo nunca chegou nem perto do Brasil), o célebre industrial decidira cultivar selecionadas seringueiras naquelas terras virgens. Com o látex obtido, pretendia abastecer suas fábricas de carros, numerosas já nessa recuada época; Belterra, a outra comunidade com idênticos objetivos, seria implantada somente oito anos mais tarde.

Vencido, pois, como tantos outros jovens, pelo fascínio das notícias que se irradiavam do novo Eldorado, meu pai, Vidal Macedo Bemerguy, aos vinte e um anos incompletos, também veio conferir as douradas informações: largou tudo, inclusive (provisoriamente) a noiva, e desceu de perto para abrir a boca ante as maravilhas que os americanos estavam realizando. Chegou, viu e ficou, ao comprovar que não havia exagero nas narrativas lidas ou escutadas: tudo funcionava muito bem, com requintes de organização, detalhe que particularmente encantou o curioso rapaz, que desde cedo revelava antipatia por qualquer coisa confusa, sem ordem.

Era natural, entretanto, que o excitante garimpo sem ouro agisse como poderoso chamariz para toda espécie de aventureiros. Só no primeiro ano de implantação, já havia cerca de quatro mil operários de todas as procedências na fervilhante vila. Apesar das cautelas com que compunham seus quadros funcionais, os “gringos” não conseguiram evitar que lobos se infiltrassem no meio de cordeirinhos. E foram esses que, sem mais nem menos, num injustificável ato de molecagem coletiva, lideraram, um dia, a séria desordem que passaria a ser posteriormente lembrada como “Quebra-panelas”. Sob o pretexto injusto de contestarem a qualidade das refeições que lhes eram fartamente servidas no amplo restaurante da empresa, os arruaceiros fizeram desabar aflição e desassossego sobre toda a população. Contida, porém, a irresponsável baderna, duro foi o ajuste de contas: contava papai que muitas centenas de trabalhadores se viram sumariamente despedidos, recebendo o que por lá se conhecia como “descarga” - o bilhete de irreversível dispensa.

Este breve capítulo inicial das memórias que me dispus a compilar, objetiva apenas definir o cenário onde começou a se desenrolar a fieira de minha vida. No dia de Natal de 1931, por conveniências de ambos, mamãe e papai casaram-se por procuração e, vindo residir em Fordlândia, a jovem esposa rapidamente se adaptou às novas circunstâncias. Afinal, tudo ali era novidade, progresso, estimulante fuga do invariável ramerrão itaitubense, onde, de bocejo em bocejo e de fuxico em fuxico, os compridos dias se arrastavam, sem pressa, como se o próprio tempo ficasse meio entorpecido, abobalhado com a paulificante repetição de gestos e palavras. Até as alvoradas e os crepúsculos pareciam ser pintados pelos mesmos anjos, com as mesmas cores de sempre. Até o vento soprava teimosamente na mesma direção.

A súbita quebra da insípida sequência - como pedrada desferida em taça de cristal - era um encanto e uma injeção de entusiasmo na gente tapajônica.

(Emir Bemerguy – ”Enquanto eu me lembro” – 1975)