Quando naquele dia em nosso passado o caboclo Plácido pisou às margens do igarapé Murucutu, não imaginava encontrar uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Tampouco pensava desencadear a hoje colossal relação de fé mariana que se renova e cresce a cada ano no coração da Amazônia. A devoção, iniciada de forma solitária em 1700, hoje é uma das maiores manifestações religiosas do país. Tem a força de transformar Belém durante um mês inteiro. Faz o católico paraense virar apenas um: o devoto de Nossa Senhora de Nazaré, aquele que não mede esforços para acompanhar os 3,6 quilômetros da procissão. Faz de tudo para prestar uma homenagem, pagar uma promessa, enfrenta a dor e faz o sacrifício virar gratidão.
Após o achado, Plácido levou a imagem para casa. Colocou em um lugar especial. Que devoto não faz o mesmo até hoje? No dia seguinte, a imagem sumiu. Plácido foi atrás e a encontrou no mesmo lugar do achado. A história se repetia por dias e dias, até que a imagem foi levada para o Palácio do Governo. No local do achado, Plácido construiu uma pequena capela. Não demorou muito e o lugar virou referência. Vinte anos depois, o Pará recebeu o primeiro bispo. Dom Bartolomeu do Pilar foi até lá verificar o movimento religioso que se formava.
O primeiro Círio só foi realizado na tarde do dia 8 de setembro de 1793 e foi o resultado do pagamento de uma promessa. Para alcançar uma cura, o então presidente da Província do Pará, Francisco de Souza Coutinho, prometeu levar a imagem do Palácio do Governo até a ermida de Plácido, onde a Virgem era cultuada. Estima-se que dez mil pessoas acompanharam essa procissão.
Os primeiros Círios não tinham data fixa. Podiam ser realizados em setembro, outubro ou novembro. Só em 1901 foi decidido que o segundo domingo de outubro seria a data oficial do Círio. A primeira romaria deu origem às onze atuais: dos motoqueiros, das crianças, dos jovens, dos ribeirinhos... Assim, como Francisco em 1793, todos querem agradecer, pagar promessas, renovar os votos de fé na Virgem de Nazaré. Que fiel não se sente como ele nesta época do ano? Por isso, o devoto pode estar bem longe, mas no Círio volta para casa. Quer estar perto da Mãe

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