Por Nelson Rodrigues.
“A maioria absoluta das mulheres pensa que é bonita. E nasce,
vive, envelhece e morre nesta ilusão. Há o espelho, eu sei. O espelho
devia retransmitir, por um dever quase profissional, com uma fidelidade
implacável, uma exata imagem de cada um de nós. Nem tanto. E pelo
contrário. Em vez de dar uma medida de nossas qualidades e de nossos
defeitos físicos, ele é um fabuloso retocador. A mulher pode sonhar
diante do espelho.
Nós sabemos de mocinhas feias, muito feias, que se julgam lindas, que se julgam irresistíveis. E é isso que as salva. Deus retirou da mulher de feminilidade escassa ou nula, [percebe-se aqui a falta de alguma palavra]chega a dizer: — “Eu sou feia!”. Ou está sendo insincera ou é um ser em crise. A garota que se julga feia, que se sabe feia deve tratar-se. Seu problema não é de cirurgia plástica, mas de psiquiatria, de psicanálise.
Então pergunto: —“Existe mesmo a mulher feia?”. Eu próprio respondo: — a feia integral, indubitável, absoluta, não existe, nunca existiu, é um ser utópico, impraticável. Cada mulher, e ainda as menos dotadas, tem uma doce estrela secreta que lhe é própria, inalienável. Pode ser que nem todos sintamos essa flama, mas, nesse caso, o defeito é nosso, a incapacidade é nossa.
Quem está com a razão é o homem de rua. O homem de rua — anônimo, jocundo, extrovertido — não discrimina as feias das bonitas, as simpáticas das antipáticas. Desde o princípio do mundo nenhuma mulher saiu à rua sem ouvir um galanteio. Ao voltar, ele traz junto ao seio, como uma dália secreta, esse galanteio inesquecível de esquina. Aparentemente, o homem de rua tem um gosto que é a um tempo irresponsável e delirante.
Eu vos digo que não. Ele está certo. Mais inteligente do que nós, mais sensível, ele descobriu que está para nascer a mulher feia, a mulher insignificante. No trem da Central ou no “Maria Fumaça” da Leopoldina, na Praça da Bandeira, no lotação e no ônibus ou nos bondes anti-diluvianos — cada pequena tem uma chama interior, uma crepitação, um charme de Joana D’Arc.
Comecei esta croniqueta falando na ilusão de beleza que nasce e morre nas mulheres. Não é ilusão. Elas trazem para vida um encanto docemente eterno. Mesmo as feias, como são lindas!”
Nós sabemos de mocinhas feias, muito feias, que se julgam lindas, que se julgam irresistíveis. E é isso que as salva. Deus retirou da mulher de feminilidade escassa ou nula, [percebe-se aqui a falta de alguma palavra]chega a dizer: — “Eu sou feia!”. Ou está sendo insincera ou é um ser em crise. A garota que se julga feia, que se sabe feia deve tratar-se. Seu problema não é de cirurgia plástica, mas de psiquiatria, de psicanálise.
Então pergunto: —“Existe mesmo a mulher feia?”. Eu próprio respondo: — a feia integral, indubitável, absoluta, não existe, nunca existiu, é um ser utópico, impraticável. Cada mulher, e ainda as menos dotadas, tem uma doce estrela secreta que lhe é própria, inalienável. Pode ser que nem todos sintamos essa flama, mas, nesse caso, o defeito é nosso, a incapacidade é nossa.
Quem está com a razão é o homem de rua. O homem de rua — anônimo, jocundo, extrovertido — não discrimina as feias das bonitas, as simpáticas das antipáticas. Desde o princípio do mundo nenhuma mulher saiu à rua sem ouvir um galanteio. Ao voltar, ele traz junto ao seio, como uma dália secreta, esse galanteio inesquecível de esquina. Aparentemente, o homem de rua tem um gosto que é a um tempo irresponsável e delirante.
Eu vos digo que não. Ele está certo. Mais inteligente do que nós, mais sensível, ele descobriu que está para nascer a mulher feia, a mulher insignificante. No trem da Central ou no “Maria Fumaça” da Leopoldina, na Praça da Bandeira, no lotação e no ônibus ou nos bondes anti-diluvianos — cada pequena tem uma chama interior, uma crepitação, um charme de Joana D’Arc.
Comecei esta croniqueta falando na ilusão de beleza que nasce e morre nas mulheres. Não é ilusão. Elas trazem para vida um encanto docemente eterno. Mesmo as feias, como são lindas!”

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