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quarta-feira, 12 de março de 2014

HPV: A resistência religiosa

Apesar de indicada por especialistas em saúde, a campanha nacional de vacinação contra o HPV, lançada pelo governo federal para tentar reduzir a incidência do câncer de colo de útero, vem enfrentando resistência de grupos católicos e evangélicos. Ao defender a castidade como única ‘vacina’ 100% eficaz contra doenças sexualmente transmissíveis, as DSTs, fiéis propõem, através das redes sociais na internet, o boicote à vacinação.

Sites religiosos recorrem a artigos para alertar sobre ‘supostos’ riscos da vacina, como esterilidade e mortes súbitas de mulheres pelo mundo, não confirmada por autoridades. A intenção é contraindicar a imunização de 5,2 milhões de meninas, entre 11 e 13 anos — 400 mil no estado.

No ano passado, cerca de 4,8 mil brasileiras morreram por causa da doença. A principal dificuldade será vencer os argumentos de que a vacinação vai antecipar a vida sexual das adolescentes. Em declaração ao jornal Tribuna de Petrópolis, frei Antônio Moser, considerou a medida prematura. “A vida sexual de meninas e meninos não deve começar aos 11 anos. Abordar de forma tão massiva essa temática é como uma incitação para adiantá-la”, diz o religioso.

Superintendente de Vigilância Epidemiológica e Ambiental da Secretaria de Estado de Saúde, Alexandre Chieppe, tranquiliza os pais. “A expectativa é que essa imunização agora proteja ela, no futuro, quando for iniciar a vida sexual. De forma nenhuma, a vacina vai estimular que inicie mais precocemente a relação sexual”.

Mesmo a favor da vacina e à frente de um grupo de mulheres na Igreja Batista Rancho Novo, em Nova Iguaçu, Patrícia Alencar, afirma que não vacinaria sua filha, já que sua religião prega o resguardo do sexo até o casamento. “Minha filha tem 9 anos, mas se estivesse na idade, não vacinaria. Prezo e educo pelo resguardo”, diz.

Muita gente nunca ouviu falar da enfermidade  - Apesar da campanha do Ministério da Saúde, ainda há pessoas que nem ouviram falar sobre a vacinação nem sobre a doença. Ontem, na Igreja Pentecostal Deus é Amor, na Gamboa, algumas disseram que não faziam ideia da sigla: “Nunca ouvi falar em HPV. É alguma coisa da Aids?”, questionava a obreira Maria de Lourdes Souza, 55 anos. “Por que as meninas precisam tomar tão cedo? Nem elas sabem o que é isso”, completou Susane de Lima, 27 anos, outra fiel.
Muitos ainda reclamavam da falta de informação. “Deveria haver mais esclarecimento sobre a doença para as meninas. Minha filha de 12 anos nem imagina o que é isso”, comentou Denise Thiago de Medeiros, de 26 anos, que estava na Lapa.

Líder da Assembleia de Deus dos Últimos Dias, em São João de Meriti, o pastor Carlinhos também não sabia da vacina ou detalhes sobre a doença. “Sou a favor da fidelidade entre casais acima de tudo, mas preciso entender melhor o que é o HPV antes de dar minha opinião sobre o assunto”, afirmou o religioso, com cautela.

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