Ontem (5), em discurso da tribuna do Senado, o novo presidente do PMDB, senador
Romero Jucá (PMDB-RR), fez um duro pronunciamento, chamando de golpe a
proposta de eleições gerais por não estarem previstas na Constituição e
defendendo o impeachment como a saída para a crise política, apresentada
por ele como uma alternativa é constitucional. Jucá ainda atacou o PT e
até o aliado de partido, o presidente do Senado, Renan Calheiros
(PMDB-AL). Diante de Renan, Jucá disse que o desembarque do PMDB do
governo não foi "precipitado e nem pouco inteligente", como disse o
presidente do Senado na semana passada. O senador repetiu que o PT
queria que Temer descesse do cargo de vice-presidente e fosse para a
"briga de rua", mas que o partido não permitiu isso.
O presidente Renan defendeu, nesta terça-feira, a realização de eleições gerais, ou seja, para todos os cargos. Já a presidente Dilma Rousseff disse, em tom irônico, que aceitava a proposta desde que todos renunciassem a seus cargos.
Jucá disse que isso seria mudar a regra do jogo sem previsão
constitucional e que isso sim é golpe e não o processo de impeachment,
que está previsto na Constituição.
— A saída está na regra, está na Constituição. Qualquer outra saída
mirabolante, desculpem-me, aí sim é golpe, aí sim é golpe! Eleições
gerais para todo mundo está na Constituição? Não. Todo mundo renunciar
está na Constituição? Não. Traduzindo para a população: regra tem que
ser cumprida. Para saber se a regra é cumprida não precisa ir ao Supremo
não. Pergunta ao Arnaldo Cezar Coelho (juiz de futebol): isso pode? Ele
vai dizer: pode não. Porque, se pudesse mudar a regra, quando o Brasil
estivesse perdendo de 7 a 1 da Alemanha, pararíamos o jogo e diríamos
que estava cancelado e que amanhã nós começaríamos de novo com 0 a 0.
Essa não é a saída que o país espera, não é essa a saída. A saída é
majoritariamente este Congresso se afirmar, e, sem ter vergonha, os
partidos se colocarem. E, a partir daí, termos um quadro político que
vai efetivamente definir os rumos deste país — disse Jucá, ressaltando:
— O PMDB não está pregando golpe. fora da política não há solução
sustentável. Fora da política teremos ou uma bravata ou um outsider da
política que, no outro dia em que sentar na cadeira, não saberá para
onde ir. E vamos pagar um preço ainda maior. Não vamos aceitar ataques e
descredenciamentos. O PMDB nacional entendeu que as bases com o PT
tinham ruído.
Jucá disse que "não tem medo de briga".
— Disse ao presidente Michel, como outros companheiros disseram:
"Presidente Michel, você não pode ser instado, provocado a descer à
planície e entrar em brigas de rua". Essa era o objetivo: espicaçá-lo,
provocá-lo, para gerar desgaste em alguém que pode ser, dependendo do
desejo majoritário do Congresso, uma esperança de construção de uma
outra conjuntura política para o país — disse Jucá.
RENAN CONSTRANGIDO - Sem citar o nome de Renan,
Jucá citou as declarações do presidente do Senado — de que o encontro
foi precipitado e pouco inteligente — e as rebateu. Argumentou que 82%
do partido queriam e aprovaram o desembarque no último dia 29. Renan
cortou o microfone, acionando a campainha, por várias vezes.
— Alguns levantaram que a decisão seria precipitada ou até pouco
inteligente. Pois bem, não acho que a posição foi precipitada. Aliás,
minha posição foi antecipada em 2014. Acho que a posição veio na hora
certa. Não é precipitado tomar uma decisão a favor do povo. Ao
contrário, é uma posição acertada, consentânea com a realidade e com o
momento de falta de representatividade em que vivem os partidos e os
políticos, hoje — disse Jucá, sob o olhar constrangido de Renan e
disparando:
— E a posição foi pouco inteligente? Pouco inteligente para quem? É
inteligente cuidarmos da nossa vida e deixarmos o povo ao léu? Talvez
seja a hora de ser pouco inteligente em algumas questões e de ser
defensor do bem comum, de deixar o interesse pessoal e de cuidar do
interesse coletivo de quem votou em todos nós.
Cobrado por petistas sobre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha
(PMDB-RJ), na foto que registrou o desembarque do PMDB e sua ligação com
Temer, Jucá disse que Cunha está sendo investigado pelo Supremo e
deverá responder, mas acrescentou que isso é uma "questão menor".
— O impeachment, vamos tratar no momento apropriado. Agora, vocês do
PT estão querendo sempre confundir essa questão para tentar trazer o
Eduardo Cunha, para trazer um ponto ou outro e tentar universalizar um
quadro que não é verdadeiro. O Eduardo Cunha faz parte do PMDB, tem o
direito de se defender e, no momento apropriado, o Supremo vai decidir.
Essa é uma questão. O PMDB apoia a investigação da Lava-Jato. Numa
democracia, não há demérito em ser investigado. Demérito é ser
condenado. E na hora que é condenado, cai fora — disse Jucá, respondendo
a Lindbergh Farias (PT-RJ).
O senador também ironizou as negociações de Dilma para a reforma ministerial. — Reduzir prazo de mandato de alguém eleito não pode, é cláusula
pétrea. O que sairá dessa votação do impeachment? É uma incógnita. Mas,
agora, a presidente Dilma vai dar o cheque pré-datado (aos partidos) —
disse ele.
Ele disse ainda que será uma "covardia" os parlamentares faltarem à votação do impeachment: — Duvido que adotem a tática da covardia, de ficar embaixo da cama.
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