Ela chamou de "golpistas" todos aqueles que defendem o  impeachment. "Não importa se é um pedreiro, engenheiro, professor ou empresário. É golpista", frisou, repetindo a estratégia de se colocar como vítima de um processo no Congresso.

Pacto
Durante uma conversa de pouco mais de duas horas, a presidente disse que, se vencer, vai propor um pacto político nacional, envolvendo todos os atores, inclusive a oposição. "A crise no país é tão grave que não há solução que não seja por meio de um pacto", disse.  Se perder, se considera "uma carta fora do baralho".

Na hipótese de permanecer, o pacto que pretende propor deve envolver, afirmou, todos os setores da sociedade governo, oposição, empresários e trabalhadores. "Sem vencidos nem vencedores", disse. Para ela, o pacto deve prever compromisso com reformas entre as quais a reforma política

Cunha e Temer
Ela afirmou que o processo de impeachment decorre da vontade "do senhor presidente da Câmara", que, em caso de impeachment, será o vice-presidente da República. E apontou a existência de uma "sociedade" entre Cunha e o vice-presidente Michel Temer.

Economia
Sobre a crise econômica, Dilma afirmou que foi intensificada pela crise política, mas não é decorrência exclusiva desta. "Nós estamos diante de uma situação em que há uma interação entre uma instabilidade política profunda, que há 15 meses afeta o país. Portanto, há uma interação entre a crise política com a econômica. Não digo que a crise econômica decorre da política, mas é bem intensificada", disse.

Segundo ela, as medidas adotadas pelo governo adiaram a crise econômica no Brasil. "Não acho que tenha sido por conta das medidas anticíclicas as nossas mazelas. Nós adiamos a crise. Quando há quebra no ciclo econômico, a crise aparece. Nós temos desfunções. Nós precisamos ultrapassar essas disfunções. Acredito que tivemos um aprofundamento da crise derivado do fato de que, ao fazer a política anticíclica, derrubamos demais a arrecadação do país."
 
É feliz como presidente 
Dilma parecia tranquila. Bem-humorada, afirmou que "de uma certa forma" é feliz como presidente da República.

"É que eu acho que essa é uma pergunta que nenhum de nós consegue responder direito [sobre ser feliz]. O 'de certa forma' é que depende do que eu estou fazendo, porque não existe um estado de felicidade constante. Ninguém é assim". Disse e sorriu.

De batom vermelho, camisa preta com bolinhas brancas –e mangas transparentes– e os tradicionais brincos de pérolas, a petista comentou reportagem publicada pela revista IstoÉ que afirma que ela tem tido comportamentos agressivos e tomado remédios para dormir.

Assumiu que fica nervosa "algumas vezes", mas negou desequilíbrio e medicamentos. "É contra todas as evidências dizer [isso] de alguém que anda de bicicleta no mínimo 50 minutos [por dia], às vezes ando por 1h10, faço musculação..."

Segundo Dilma, esse tipo de comentário é "sem dúvida" machista. "Você já ouviu falar que o discurso de algum homem é desequilibrado?", questionou como resposta.

Minutos depois, porém, a presidente assumia sua dificuldade de falar em público. Dilma é conhecida por se atrapalhar quando resolve discursar de improviso e seus assessores sofrem para elaborar um texto com o qual ela concorde em ler integralmente.

"Eu sei escrever, não sei falar... sou uma 'escrivinhadora'. Só consigo entender quando escrevo", afirmou a presidente.

Apesar disso, Dilma diz que não faz um diário durante seus dias na Presidência da República, como costumava fazer o tucano Fernando Henrique Cardoso.

Prefere escrever sobre outras coisas –não detalhou quais–, e garantiu que não vai se arriscar em produzir um livro quando deixar o cargo. "Acho que para dar conta disso aqui só a literatura, diário não. Não acredite que isso aqui se entende com relatório ou diário. Tem umas coisas que... vou te falar, são intrigantes". Dilma estava falando da "personalidade" de aliados e frequentadores do poder. Mas preferiu não entregar nenhum nome. "São vários. Vários".
 
"A gente deveria ter duas vidas: uma para ensaiar e outra para viver. Eu tinha que ter ensaiado, mas fui obrigada a viver". Dilma Rousseff preferiu citar Vittorio Gassman, ator e diretor italiano, no lugar de dizer o que não faria de novo em seu mandato como presidente da República.