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sábado, 11 de junho de 2016

Amor ao contrário: Romances que viraram caso de polícia

No mês das juras de amor eterno, reunimos quatro crimes passionais que ninguém jamais esquece. Dorinha Duval, Lindomar Castilho e Doca Street cumpriram penas nem sempre compatíveis com o tamanho da tragédia que provocaram. Já o americano O. J. Simpson foi inocentado pelo assassinato da ex-mulher. 
SERVIDÃO HUMANA
Na versão da atriz Dorinha Duval, que na madrugada de 5 de outubro de 1980 matou com três tiros o marido, Paulo Sérgio Alcântara, a discussão começou no quarto do casal. Ela o teria procurado carinhosamente, ele a repeliu com grosserias. De acordo com o que Dorinha relatou em um livro publicado anos mais tarde, ele a rejeitou dizendo que ela estava muito velha e que preferia meninas de corpo durinho. Com 51 anos, 16 a mais que ele, a atriz afirmou que se dispunha a encarar uma cirurgia plástica para satisfazê-lo, mas Paulo Sérgio disse que não adiantaria: “Você não dá mais, nem com operação”. Dorinha então jogou na cara do marido que, quando ele precisava de dinheiro, era a ela que recorria. A partir de então, segundo disse em seu depoimento, Paulo Sérgio passou a agredi-la. Para se defender, pegou o revólver que o cineasta havia comprado depois de sofrer um assalto e descarregou seis tiros nele. 
 
Por 7 votos a 0, Dorinha foi condenada a um ano e meio de prisão com sursis (suspensão condicional da pena). Num segundo júri, recebeu a pena de seis anos, que passou a cumprir aos 62 anos. Violentada aos 15 anos, três anos mais tarde Dorinha se prostituiu para aplacar dificuldades financeiras e, depois, tornou-se atriz renomada da TV Globo. Na ocasião do crime, tinha acabado de fazer o papel de uma das irmãs Cajazeiras na primeira versão da novela “O Bem-Amado”, de Dias Gomes. Mãe da atriz Carla Daniel, de seu casamento com o diretor Daniel Filho, Dorinha tornou-se artista plástica quando deixou a cadeia. Hoje, com 87 anos, vive no Leme, zona sul do Rio.
SAIDEIRA
“Eu a amava com certeza”, disse o músico Lindomar Castilho, 20 anos depois de matar a cantora Eliane de Grammont, sua ex-mulher, na madrugada do dia 30 de março de 1981. Lindomar apareceu no bar Belle Époque, em São Paulo, onde Eliane fazia uma apresentação acompanhada do violonista Carlos Roberto da Silva, o Carlos Randall, e atirou segurando a arma com as duas mãos. O casamento deles tinha durado dois anos, mas Eliane pediu o divórcio alegando que o marido exagerava na bebida e frequentemente batia nela. “Levantei os olhos do violão e dei de cara com o Lindomar apontando a arma para Eliane”, conta Randall, que era primo do assassino e foi o pivô do crime. De acordo com Lindomar, que alimentava um ciúme doentio da mulher, Eliane mantinha um caso com o violonista. “Ele foi o causador de tudo”, desabafou Lindomar à revista IstoÉ Gente, depois de sair da cadeia. Conhecido por cantar boleros e sambas-canções como “Você É Doida Demais”, tema do seriado Os Normais, da TV Globo, ele disparou cinco tiros na direção da mulher. Um deles acertou a barriga de Carlos Randall, que havia se colocado à frente de Eliane para protegê-la. Com a ajuda do dono da boate, Randall conseguiu desarmar o assassino. O violonista ainda tentou socorrer a cantora, levando-a ao Pronto-socorro Brigadeiro, mas ela morreu no caminho. Ao tentar fugir, Lindomar foi dominado pela polícia e preso em flagrante. 
 
Na ocasião do julgamento, houve uma grande manifestação de feministas na porta do fórum, quando as mulheres gritavam o bordão “bolero de machão só se canta na prisão”, enquanto um grupo autodenominado “os machistas” ofendia e jogava ovos nelas. Em 1985, por 4 votos a 3, o júri condenou Lindomar Castilho a 12 anos e dois meses de prisão por homicídio triplamente qualificado, cometido por motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima; e, no caso de Randall, por lesão corporal culposa. Na prisão, o cantor gravou um disco que aludia dramaticamente à sua situação, chamado Muralhas da Solidão.
DESCABEÇADO
A socialite mineira Ângela Diniz e o playboy paulista Raul Doca Street namoravam havia quatro meses quando, na véspera do Réveillon de 1976, depois de uma briga por causa de ciúmes, ele a matou com três disparos no rosto e um na nuca. O advogado de Doca, Evandro Lins e Silva, alegou defesa da honra. Disse que Ângela costumava provocá-lo, comparando-o com os ex-namorados. No dia do crime, afirmou, “ele perdeu a cabeça”. Naquela tarde, ainda segundo Lins e Silva, Ângela teria chamado a alemã Gabrielle Dayer, uma loira curvilínea que vivia de artesanato no balneário, para um ménage à trois. Única testemunha do crime, Gabrielle caiu misteriosamente de um penhasco na praia da Ferradura, no centro de Búzios, quatro meses depois. 
 
O playboy foi condenado a dois anos com sursis, o que levou a opinião pública a reagir com indignação. Graças a ação intensa dos movimentos feministas, houve novo julgamento e, em 1981, Doca Street pegou 15 anos de cadeia. Na época, criou-se o slogan “quem ama não mata”, que virou até nome de minissérie na TV Globo. Ao deixar a penitenciária, Doca voltou a ser vendedor de carros, passou a viver com uma corretora de imóveis em um apartamento de dois quartos em um predinho no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, e escreveu um livro intitulado Mea Culpa.
JOGADA INFELIZ
Até 12 de junho de 1994, a vida do astro do futebol americano O. J. Simpson fora um relativo sucesso. Apesar de ter tido uma adolescência conturbada, com direito a alguns meses de detenção por delinquência, ele tornou-se internacionalmente conhecido não só como atleta, mas também como radialista e quase ator. Simpson já havia gravado o piloto de uma série chamada Frogmen, em que faria o líder de um grupamento da Marinha. A série estrearia em setembro daquele ano, mas uma tragédia mudou dramaticamente o destino do jogador. Na madrugada daquele dia 12, gritos vindos do casarão onde morava sua segunda mulher, a ex-garçonete Nicole Brown, levaram alguns vizinhos a ir ver o que estava acontecendo. Ao chegar, eles se depararam com uma cena horripilante: o cadáver de Nicole jazia sobre uma enorme poça de sangue, com a garganta cortada, a poucos metros do corpo de seu amante, Ronald Goldman, morto com 22 golpes de faca.

Nicole era mãe de dois dos cinco filhos de Simpson e se divorciou dele depois de relatar vários episódios de violência contra ela. Alegou diferenças irreconciliáveis. Como Simpson embarcou poucas horas depois do crime em um voo para Chicago, a polícia a princípio só o convocou como testemunha. Com o decorrer das investigações, porém, as evidências o apontavam como o principal suspeito. Gotas de sangue das vítimas foram detectadas em suas meias; uma luva recolhida na cena do crime fazia par com outra, encontrada na casa dele; e havia pegadas no local compatíveis com o tamanho de seus pés. Simpson negou, seu advogado (o polêmico Robert Shapiro) tentou desclassificar as provas, mas não foi possível evitar a expedição de um mandado de prisão para cinco dias depois. O jogador se comprometeu a se entregar às 11h, mas desapareceu. A polícia acabou descobrindo seu paradeiro, ele fugiu de carro e iniciou-se uma perseguição cinematográfica, transmitida ao vivo para todo o país.

Preso, Simpson foi réu em um processo considerado nos EUA o “julgamento do século”. Em 3 de outubro de 1995, o veredicto foi transmitido ao vivo para mais de 100 milhões de telespectadores. A defesa conseguiu suprimir boa parte das evidências e, o que contou muito, alegou que Simpson era vítima de racismo por parte da polícia de Los Angeles. O júri composto por nove negros, dois brancos e um hispânico o inocentou. Na esfera civil, contudo, ele não conseguiu escapar. Pai de cinco filhos, dois com Nicole, ele foi condenado a pagar uma indenização de US$ 33 milhões para as famílias das vítimas. Como não conseguiu cumprir, em 1999 teve seus bens leiloados e, mais tarde, por determinação de um juiz, restringiu seus gastos a “despesas normais e necessárias”. Em 2007, lançou o livro If I Did, onde narra como teria cometido os crimes (“se tivesse cometido”). Toda a renda foi usada para saldar as determinações do processo civil. No mesmo ano, foi acusado de sequestro a mão armada e condenado, em junho de 2008, aos 61 anos, a 33 anos de cadeia. Está preso até hoje.

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