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terça-feira, 14 de junho de 2016

Desnaturalizar a miséria!

Por Dom Orani Tempesta 
Celebramos ontem, dia 13 de junho, a festa de Santo Antônio, nascido em Lisboa, e que evangelizou grande parte da Europa, vindo a fazer a sua páscoa na cidade de Pádua. Santo muito querido e muito amado em todo o Brasil, particularmente, em nossa amada Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, com muitas paróquias, igrejas a ele dedicadas. 

Entre as várias histórias que contam sobre o pão de Santo Antônio, uma delas diz que o Frei Antônio distribuiu aos pobres todo o pão do convento em que residia. O frade padeiro ficou apavorado, quando na hora da refeição, percebeu que os frades não tinham o que comer, porque os pães tinham sido “roubados”. Ao chegar diante do Santo para relatar o ocorrido o frade padeiro foi surpreendido quando Frei Antônio mandou o frade padeiro averiguar se havia guardado os pães em outro lugar. Ao chegar no refeitório do Convento encontro os cestos transbordando de pães que deu para a refeição dos confrades e, ainda, sobretudo para socorrer os pobres que nada tinham para comer.

Isso nos compromete com a necessidade de darmos pão aos que não tem (dai-lhes vós mesmos de comer), ainda mais com a significativa visita, na manhã romana deste dia, do Papa Francisco para o Programa Mundial Alimentar (PMA), quando textualmente alertou: “São tantas as imagens que nos invadem onde vemos o sofrimento, mas não o tocamos; ouvimos o pranto, mas não o consolamos; vemos a sede, mas não a saciamos. Assim, muitas vidas entram a fazer parte duma notícia que, em pouco tempo, acabará substituída por outra. E, enquanto mudam as notícias, o sofrimento, a fome e a sede não mudam, permanecem. Esta tendência – ou tentação – exige de nós um passo mais e, por sua vez, revela o papel fundamental que instituições como a vossa têm no cenário global".

O Papa Francisco disse que é preciso trabalhar por “desnaturalizar” e desburocratizar a miséria e a fome dos nossos irmãos: “Quando a miséria deixa de ter um rosto, podemos cair na tentação de começar a falar e discutir sobre “a fome”, “a alimentação”, “a violência”, deixando de lado o sujeito concreto, real, que continua ainda hoje a bater às nossas portas. Quando faltam os rostos e as histórias, as vidas começam a transformar-se em números e assim, pouco a pouco, corremos o risco de burocratizar o sofrimento alheio".

Na Igreja de Santa Luzia, no Castelo, aqui no centro de nossa cidade, no fundo da Igreja está exposta a imagem de Santo Antônio, tendo sobre o braço esquerdo o Livro dos Santos Evangelhos, com o Menino Jesus sentado sobre o livro, segurando um cesto repleto de pães, enquanto o Santo com a mão direita oferece um pão a alguém. Este deve ser o gesto concreto, nosso, neste tempo de festas juninas. Ir levar, dentro do ano santo extraordinário da misericórdia, o pão para aqueles que nada têm para comer e para beber.

O grande milagre da multiplicação dos pães feito por Santo Antônio em seu convento, naquele tempo, pode ser concretizado no hoje, quando somos chamados a repetir o gesto evangélico dando de comer a quem passa fome. Dedicar-se ao outro, a servir ao outro, é o convite que Santo Antônio ouviu de Nosso Senhor Jesus Cristo e que devemos atualizar hoje amar o próximo, querer o bem das pessoas, dar atenção a quem é deixado de lado pela sociedade. Além de receber o pão bento no dia de hoje, (com a tradição da confiança na providência, e por isso as pessoas o colocam nas vasilhas de alimentos de nossas casas), devemos ir para o gesto concreto, em que a prática de Santo Antônio, nos ensina a cuidar do outro, a ser mais generoso, misericordioso, com gestos e atos de amor, de caridade, de acolhida, de promoção humana, de promoção da vida plena. Devemos nós ser providência para a vida do irmão.

“Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede!” (Jo 6,35). Esse pão que Jesus nos oferece é dado para que possamos saciar a fome material e espiritual de todos os irmãos e irmãos que nos rodeiam. Não podemos ficar insensíveis à fome, ao crescimento desenfreado do desemprego, a perca de emprego e de renda do povo brasileiro, particularmente da grave crise que assola o Estado do Rio de Janeiro. Pregando o Evangelho com a vida e com a voz de Cristo, como fez Santo Antônio, torna o Senhor presente no meio da humanidade. Pela Eucaristia Jesus torna-se o pão repartido para a nossa salvação. Por isso, com Santo Antônio, sejamos capazes de nos doar aos irmãos levando o testemunho eloquente do amor, da paz e da misericórdia.

Peçamos ao santo taumaturgo a graça de sempre termos o Pão da Eucaristia, o Pão da Palavra e o Pão nosso de cada dia em nossas mesas. Que Ele nos ensine a sermos mais solidários. Santo Antônio, rogai por nós! Ajude-nos a dar o pão a quem precisa, amém! Somente assim poderemos, como pede o Papa Francisco, ser homens e mulheres comprometidos com a vida plena e prontos para, com gestos reais, “desnaturalizar a miséria!”.

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