Por Jorge Oliveira, jornalista - Diário do Poder
Depois de renunciar em agosto de 1961, movido por forças ocultas, o
ex-presidente Jânio Quadros, voltou para São Paulo e sobrevoou a cidade
demoradamente até o avião descer no aeroporto. No saguão estava a
esperá-lo o governador Carvalho Pinto (1959/1963) e mais alguns gatos
pingados. Frustrado, Jânio perguntou, surpreso:
- Governador, onde está o povo?
- Que povo, presidente, está de porre? - respondeu o governador diante da irritação de Jânio.
O ex-presidente, “que se deu um golpe”, esperava voltar a presidência
nos braços do povo depois de deixar o poder. O diálogo é lembrado pelo
jornalista Mauro Ribeiro, autor do livro “Diário de um confinado”, que
conta a história do retiro de Jânio Quadros em Corumbá, em 1968, por
ordem dos militares, que ele cobriu para a Tribuna da Imprensa.
Esse episódio guarda semelhança com o que aconteceu no último fim de
semana, quando o ex-presidente Lula desobedeceu a ordem de prisão do
juiz Sérgio Moro e ficou confinado durante 26 horas no prédio do
sindicato esperando que o povo aparecesse nas ruas para protestar contra
a sua prisão. O que se viu, na verdade, foi a repetição da cena de
Jânio. Lá, na porta no Sindicato dos Metalúrgicos, a plateia vermelha
era tão manjada de outros carnavais que muitos foram cumprimentados com
beijinhos do alto do palanque pelos personagens da ribalta.
Inconformado com a ausência do povo, Lula ainda tentou inflamar seus
figurantes vermelhos horas antes da prisão: entrou e saiu do carro para
mostrar as televisões que a multidão o impedia de deixar o prédio para
acompanhar os agentes da Polícia Federal. No resto do país, os recrutas
do Exército Vermelho do Stédeli ainda tentaram uma solidariedade ao
ex-presidente à maneira antiga fechando as rodovias com pneus em chama. É
uma forma tão velha de protestar que os policiais desinterditam os
locais em pouco tempo com pá mecânica. O PT envelheceu nos métodos de
fazer protestos. E o seu líder foi esquecido pelo povo, que no domingo,
aqui no Rio, encheu às ruas para acompanhar o Botafogo ser campeão.
Os brasileiros não deram muita bola para o circo armado na porta do
sindicato. Prova disso é que a Cinelândia e Copacabana, locais
simbólicos de manifestações políticas, no Rio, estavam vazios. Em São
Paulo, a Avenida Paulista também fechou os olhos para as firulas
petistas, enquanto os carros da Polícia Federal desfilavam pelas ruas da
cidade conduzindo Lula para cumprir pena em Curitiba. Se Lula queria
comoção dos brasileiros, frustrou-se. Contentou-se mesmo com a proteção
de antigos companheiros de sindicato e os figurantes do Boulos que
deixaram o local horas depois da prisão do líder. Nem mesmo dois
expoentes petistas apareceram por lá: Jacques Wagner e o governador
petista do Ceará, Camilo Santana. Nenhum outro político de expressão
esteve ao lado de Lula.
Acostumado a entourage que o cerca, Lula agora está sozinho, isolado,
fechado entre quatro paredes. Os oito seguranças, os carros de apoio, o
cartão corporativo ilimitado e outras mordomias a que tem direito como
ex-presidente, por enquanto, ficam congelados. Para se ter uma ideia,
Lula já gastou 7 milhões de reais do contribuinte desde que deixou o
governo. A Dilma, outra privilegiada, só em 2017 torrou R$ 1 milhão e
400 mil reais em passagens para ela e assessores. A soma de despesas dos
ex-presidentes, de 1999 para cá, já chega a R$ 36 milhões.
A exemplo de Jânio, Lula também perde a cabeça quando bebe e é capaz
de qualquer ato intempestivo. Antes do discurso na porta do prédio do
sindicato estava agarrado a uma garrafinha que resistiu largar,
contrariando alguns assessores que insistiam em impedir que ele bebesse
mais alguns goles antes de se apresentar aos militantes. Portanto,
deve-se relevar as agressões dele a Justiça, a mídia, aos procuradores e
o incentivo a invasão e a bandalheira que propôs no seu pronunciamento.
O Lula sóbrio não é afeito a insultos nem tampouco de instigar atos de
violência.
Lula desobedeceu a ordem judicial porque precisava fazer campanha
política. Vitimizou-se para se mostrar perseguido e inocente das
acusações. E ao se atrasar para se entregar estava consciente de que o
seu ato criaria um certo suspense. Indiscutivelmente, a sua reação gerou
uma das mais maiores audiências de TV no país. Ora, em um ano
eleitoral, Lula soube tirar proveito de uma situação adversa para
consolidar seus votos nas camadas mais populares contando a sua história
de vida e fazendo um discurso populista para os mais humildes.
Esses mitos populistas, a história registra, não morrem
politicamente, pois crava no inconsciente do povão que só ele, somente
ele, é o messias salvador. E a bebida, ao contrário do que se pensa, é
um instrumento de aproximação com o povão. Então, não se engane, a
imagem que mostra o Lula resistindo em largar a garrafinha é também,
para ele, um instrumento de campanha.
Então, só para lembrar: mesmo depois de renunciar a presidência da
república, depois de um porre, Jânio ainda foi o que quis na política
brasileira. Lula, portanto, ainda tem um grande caminho pela frente. E a
sua prisão, não se engane, ele vai saber tirar proveito dela lá na
frente.
O povão é carente de líder, infelizmente.
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