O CÍRIO
Por Cristovam Sena
A procissão do Círio em Santarém acontece desde 1919.
O de Belém comemorou 225 anos, mas o mais antigo é o de Vigia. No ano de 1697, o padre jesuíta Serafin Leite já relatava a existência em Vigia de romarias em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré. Lá se vão 321 anos.
Vigia, fundada em 06 de janeiro de 1616, é a mais antiga cidade do Pará. Seis dias mais velha que a capital Belém, que festeja sua fundação no dia 12 de janeiro do mesmo ano.
A inclinação religiosa dos paraenses, como de todos os amazônidas, é herança herdada dos colonizadores portugueses. Hoje as festividades possuem os mesmos símbolos: romaria, berlinda, corda, carros, fogos de artifício, promessas, etc...
Todos os anos, movidos pela devoção, chegam a Santarém romeiros vindos dos mais diversos furos, paranás e vilas da região, que se juntam aos peregrinos de Santarém e das cidades do Oeste Paraense e de outros Estados, para juntos estreitarem essa relação de amor, fé e esperança que sentem por Nossa Senhora da Conceição.
Formam uma multidão que se reúne para agradecer os milagres e graças alcançadas, renovando pedidos por novos milagres, graças e bênçãos. Muitos seguem a romaria descalços. Outros pagadores de promessa carregam pequenas casas na cabeça, cruzes de madeira nos ombros, vestem seus filhos de anjos, puxam a corda, distribuem água, carregam objetos de cera que representam curas alcançadas - mão, braço, pé.
A superar os limites da dor, em Belém alguns fiéis percorrem de joelhos toda a procissão.
Promessa é o compromisso de fazer alguma coisa. Caso a súplica seja atendida, o fiel se compromete a pagar com uma penitência escolhida por ele próprio. Aos incrédulos, pode ser visto até como uma troca entre o suplicante e a santidade. Alguns pais fazem suas súplicas para os filhos cumprirem a penitência. Assim, crianças vestidas de anjo acompanham o Círio sem nada entender do que acontece em sua volta, o motivo de estar ali paramentada de querubim.
Quando criança eu acompanhava o Círio em companhia do meu pai Boanerges. Lembro que no café da manhã nos era servido dois ovos quentes para que suportássemos o "sacrifício" da caminhada. A mesma dieta acontecia nos desfiles da semana da pátria.
Nossos pais não eram de fazer promessas, nunca tive que acompanhar a procissão para pagar promessa deles ou minha. Nossos problemas não eram complicados a ponto de parecerem impossíveis de serem resolvidos sem promessas.
Para mim, a parte mais comovente da procissão era quando a imagem se aproximava da Praça da Matriz.
Tempos idos, Dom Tiago (foto) com a imponência de um Cardeal caminhava com a multidão, que começava a entoar numa vibração que me emocionava, o hino da festa.
Era o clímax do Círio de Nossa Senhora da Conceição.
Nessa época, 50, 70 mil fiéis a ressoar:
"A cidade outra vez se embandeira
Ganha enfeites de alegres quermesses
Chega a festa de sua Padroeira
Grato ensejo de risos e preces".
Era de arrepiar!
Obra musical de Emir Bemerguy e seu compadre Isoca, o hino foi composto a pedido de Frei Vianney Miller em 1971.
Em 1992, para o Projeto Memória Santarena, entrevistei o Emir em sua residência.
Um dos assuntos da nossa conversa foi o Hino da Padroeira e a chegada do Círio na Praça da Matriz.
Perguntei-lhe o que sentia quando escutava a multidão a entoar o hino. Ele me disse:
"Eu não consigo cantar. Eu só não abro num choro alto porque eu me domino, mas eu fico com o rosto ensopado de lágrimas.
Já fiz um pedido num círio passado - me deram o microfone certo momento - que quando eu morrer eu gostaria que meus irmãos ao ouvirem o hino da festa rezem pelo menos uma Ave Maria por mim.
E eu acho que se eu já fiz alguma coisa boa e útil na vida foi exatamente aquele hino. Eu não tenho dúvida de que eu devo ir pro céu. Nossa Senhora vai me puxar prá lá por causa desse hino.
Então é o momento supremo de emoção na minha vida quando eu vejo o meu povo cantar o hino que eu fiz. É realmente um negócio arrasador, e eu não consigo cantar. "
No acervo do ICBS existe boa coleção dos Programas da Festa de Nossa Senhora da Conceição. O mais antigo de 1926.
Por Cristovam Sena
A procissão do Círio em Santarém acontece desde 1919.
O de Belém comemorou 225 anos, mas o mais antigo é o de Vigia. No ano de 1697, o padre jesuíta Serafin Leite já relatava a existência em Vigia de romarias em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré. Lá se vão 321 anos.
Vigia, fundada em 06 de janeiro de 1616, é a mais antiga cidade do Pará. Seis dias mais velha que a capital Belém, que festeja sua fundação no dia 12 de janeiro do mesmo ano.
A inclinação religiosa dos paraenses, como de todos os amazônidas, é herança herdada dos colonizadores portugueses. Hoje as festividades possuem os mesmos símbolos: romaria, berlinda, corda, carros, fogos de artifício, promessas, etc...
Todos os anos, movidos pela devoção, chegam a Santarém romeiros vindos dos mais diversos furos, paranás e vilas da região, que se juntam aos peregrinos de Santarém e das cidades do Oeste Paraense e de outros Estados, para juntos estreitarem essa relação de amor, fé e esperança que sentem por Nossa Senhora da Conceição.
Formam uma multidão que se reúne para agradecer os milagres e graças alcançadas, renovando pedidos por novos milagres, graças e bênçãos. Muitos seguem a romaria descalços. Outros pagadores de promessa carregam pequenas casas na cabeça, cruzes de madeira nos ombros, vestem seus filhos de anjos, puxam a corda, distribuem água, carregam objetos de cera que representam curas alcançadas - mão, braço, pé.
A superar os limites da dor, em Belém alguns fiéis percorrem de joelhos toda a procissão.
Promessa é o compromisso de fazer alguma coisa. Caso a súplica seja atendida, o fiel se compromete a pagar com uma penitência escolhida por ele próprio. Aos incrédulos, pode ser visto até como uma troca entre o suplicante e a santidade. Alguns pais fazem suas súplicas para os filhos cumprirem a penitência. Assim, crianças vestidas de anjo acompanham o Círio sem nada entender do que acontece em sua volta, o motivo de estar ali paramentada de querubim.
Quando criança eu acompanhava o Círio em companhia do meu pai Boanerges. Lembro que no café da manhã nos era servido dois ovos quentes para que suportássemos o "sacrifício" da caminhada. A mesma dieta acontecia nos desfiles da semana da pátria.
Nossos pais não eram de fazer promessas, nunca tive que acompanhar a procissão para pagar promessa deles ou minha. Nossos problemas não eram complicados a ponto de parecerem impossíveis de serem resolvidos sem promessas.
Para mim, a parte mais comovente da procissão era quando a imagem se aproximava da Praça da Matriz.
Tempos idos, Dom Tiago (foto) com a imponência de um Cardeal caminhava com a multidão, que começava a entoar numa vibração que me emocionava, o hino da festa.
Era o clímax do Círio de Nossa Senhora da Conceição.
Nessa época, 50, 70 mil fiéis a ressoar:
"A cidade outra vez se embandeira
Ganha enfeites de alegres quermesses
Chega a festa de sua Padroeira
Grato ensejo de risos e preces".
Era de arrepiar!
Obra musical de Emir Bemerguy e seu compadre Isoca, o hino foi composto a pedido de Frei Vianney Miller em 1971.
Em 1992, para o Projeto Memória Santarena, entrevistei o Emir em sua residência.
Um dos assuntos da nossa conversa foi o Hino da Padroeira e a chegada do Círio na Praça da Matriz.
Perguntei-lhe o que sentia quando escutava a multidão a entoar o hino. Ele me disse:
"Eu não consigo cantar. Eu só não abro num choro alto porque eu me domino, mas eu fico com o rosto ensopado de lágrimas.
Já fiz um pedido num círio passado - me deram o microfone certo momento - que quando eu morrer eu gostaria que meus irmãos ao ouvirem o hino da festa rezem pelo menos uma Ave Maria por mim.
E eu acho que se eu já fiz alguma coisa boa e útil na vida foi exatamente aquele hino. Eu não tenho dúvida de que eu devo ir pro céu. Nossa Senhora vai me puxar prá lá por causa desse hino.
Então é o momento supremo de emoção na minha vida quando eu vejo o meu povo cantar o hino que eu fiz. É realmente um negócio arrasador, e eu não consigo cantar. "
No acervo do ICBS existe boa coleção dos Programas da Festa de Nossa Senhora da Conceição. O mais antigo de 1926.


HINO DA FESTA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO
ResponderExcluirLetra: Emir Bemerguy
Música: Wilson Fonseca (1971)
A cidade outra vez se embandeira,
Ganha enfeites de alegres quermesses:
Chega a festa de sua Padroeira,
Grato ensejo de risos e preces.
Santarém do folclore bonito,
Das canções e do azul Tapajós,
Hoje aos céus faz subir este grito:
“Rogai sempre, Mãezinha por nós!”
Estribilho
Proclamamos, ó Virgem Maria,
Neste instante de santa emoção:
Santarém nunca mais poderia
Retirar-Vos do seu coração!
O Caminho, a Verdade e a Vida,
Encontramos no amado Jesus,
Mas sabemos que vós, Mãe querida,
Sois o atalho que a Cristo conduz.
Este povo piedoso, ó Senhora,
Vos aplaude, contrito, de pé,
E entre as palmas vibrantes implora
Que aumenteis sempre mais sua Fé!
Estribilho
Proclamamos, ó Virgem Maria,
Neste instante de santa emoção:
Santarém nunca mais poderia
Retirar-Vos do seu coração!
________________________
Texto por mim escrito no encarte do CD SINFONIA AMAZÔNICA – VOLUME 2, gravado pela Orquestra Jovem “Maestro Wilson Fonseca”, sob a regência do Maestro José Agostinho da Fonseca Neto (Tinho), em Santarém-PA (2002/2003), transcrito no meu livro “A Vida e a Obra de Wilson Fonseca (Maestro Isoca)”, impresso na Gráfica do Banco do Brasil, Rio de Janeiro (2012):
HINO DA FESTA DE N. S. DA CONCEIÇÃO
Música de Wilson Fonseca e letra de Emir Bemerguy, composta em 1971, é o hino oficial das festividades religiosas da padroeira de Santarém, que medeiam entre o último domingo de novembro, quando acontece a tradicional procissão do Círio, e o dia 8 de dezembro. É cantado, em uníssono, pelo povo, na chegada, à Catedral de Santarém, do andor que transporta a imagem da santa, numa demonstração de fé, sob vibrantes aplausos. O disco apresenta duas versões: cantada e instrumental. Com a apreciável participação do jovem Coral “Expedito Toscano”, o estribilho é executado a quatro vozes mistas, em arranjo de Agostinho Júnior, que também toca o órgão, versatilidade herdada de seu avô, na homenagem à Virgem Maria. Um verdadeiro “instante de santa emoção”.
(Vicente José Malheiros da Fonseca)
Interpretação: Coro e Orquestra Sinfônica "Maestro Wilson Fonseca", sob a regência do Maestro José Agostinho da Fonseca Neto (Santarém-PA).
Vídeo:
https://youtu.be/qTAfbjF9YF8
...
Abraços,
Vicente José Malheiros da Fonseca.
Como leitor do blog, peço-lhe a gentileza de retificar: i) o primeiro Círio de Nazaré em Belém ocorreu em 1793, logo há 227 anos e não 225, como informa o artigo. ii) a cidade mais antiga do Pará é Bragança e não Vigia. A fundação de Bragança data de 08.07.163, pelo francês Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière. Obrigado.
ResponderExcluirPeço-lhe a gentileza de proceder à retificação de dois registros: i) o primeiro Círio em Belém ocorreu em 1793, portanto fará 227 anos no fluente ano e não 225, como consignado no artigo; ii) a cidade mais antiga do Pará não é Vigia e sim Bragança, em 08.07.1613, fundada pelo francês Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière, o mesmo que fundou São Luís do Maranhão. Obrigado.
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