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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

RECANTO DOS POETAS, COMPOSITORES E ESCRITORES 

Santarenando

Autor: Jose Wilson Malheiros

Estive em Santarém. Apesar da chuva ainda há um pedacinho de praia e a cidade não perdeu o charme.

Visitei a sepultura onde reside a matéria desse ser humano ímpar que foi meu pai, para prestar-lhe uma homenagem simbólica, já que ele não está mais ali.

Ah!... Os finais de tarde na Pérola do Tapajós... cervejinha gelada, tirando gosto com jaraqui assado na brasa, um papo saudoso com amigos, o por do sol, encontro das águas e os barcos na brisa do rio anoitecendo...

Caminhando pela Orla olho as embarcações que bailam na maresia e a minha imaginação fica voando.

Esses barcos são que nem gente. Têm alma e rosto. Pode observar com atenção.

Umas vivem de cara amarrada, outras de semblante feliz, aquela uma ali tem ares de tristeza, a que vai passando ali no meio do rio navega de nariz arrebitado, tão esnobe que parece uma dondoca que se considera da alta sociedade.

Lá estão duas atracadas no Trapiche: a gordinha, toda enfeitada de alegrias, de luzes e redes, é vaidosa como as prima-donas do Teatro Scala, de Milão.

A magrinha é humilde e retrata, no casco desbotado e nos fardos que carrega, todas as pelejas, sofrimentos e desesperanças de quem trabalha nas várzeas.

De certa maneira, ela se assemelha ao nosso caboclo sofrido, da região.

Naquele instante eu não via apenas embarcações, barcos-motores, canoas e “cascos”.

Há mais do que isso. São personagens e intérpretes que ajudam a fazer o enredo dessa grande Ópera que é a vida na Amazônia.

Eu continuava viajando no barco encantado dos meus sonhos, quando sou convidado para fazer piracaia.

Um convite desses não tem preço.

Aguardo impaciente a chegada da hora.

O tempo custou a passar e agora já são dez horas de uma noite tão especial, que até a lua surgiu para me ver.

Abrem-se as cortinas, como se eu estivesse num teatro como ator e na plateia, ao mesmo tempo. Ainda nem sei se estou dormindo ou acordado.

Só sei que tudo agora me parece um devaneio. Estou no território sagrado de Alter do Chão.

As estrelas gotejam ouro e o orvalho mareja de amor.

O leite em pó das areias emoldura o dorso do rio. No Tapajós reverberam luzes e mistérios da noite.

O banzeiro revela o murmúrio das ninfas caboclas que moram encantadas no perau das águas.

Pouco a pouco os enamorados vêm chegando inebriados de luastrelas.

Cantores, flautas, violões, saxofone e bandolim, dialogam, enfeitando o diadema da noite enluarada com serenatas.

Meu saxofone vai temperando com semibreves e colcheias o molho feito de saudades, que o luar espalha na paisagem.

Tarrafas e anzóis fazem a alegria das igarités que chegam à beira da praia, generosas de peixes.

A fumaça das fogueiras de sacaí exala aromas de banquete e os seresteiros vão saborear peixe assado com farinha d’água, sal, pimenta, limão e uma cachacinha.

Tudo lembra um ritual pagão, com o sacrifício dos peixes em homenagem à Lua, a madrinha da noite, a deusa da fraternidade.

Momentos telúricos e cheios de idílios.

A madrugada se aproxima e parece cantar conosco as alegrias do paraíso em Alter do Chão.

... E o sol já começa a abrir as cortinas do amanhecer...

Tudo passou tão rápido. Porém, mais uma vez se comprova que ir para o céu, por alguns momentos, é piracaiar na praia, em noite de estreluares, celebrando ao redor das fogueiras, os eflúvios da confraternização, da fartura, da alegria e da liberdade, ao acalanto das serenatas às margem do lago verdazul dos Boraris.

É hora de ir para casa. É tempo de pegar o avião e voltar para Belém.

A saudade da Terra Querida já começa a latejar no meu peito... Afinal de contas “... recordar é sofrer mais...”, como canta o campeão, o meu Velho Isoca.

Santarém tem as carícias do colo da mamãe. Como esquecer?

Se alguém me pedir para definir o paraíso, eu digo que é um estado de espírito.

Mas se quiser uma ideia bem aproximada, passe um domingo nas praias da minha terra.

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