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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Lula: “Ministério Público faz o jogo da imprensa”

Na festa de aniversário do PT, Lula proferiu duro discurso contra os órgãos de investigação e o comportamento da mídia.
O ex-presidente Lula fez um "desabafo", como ele mesmo disse, em discurso na noite de ontem (27) durante a festa de aniversário de 36 anos do PT, no Rio de Janeiro. À militância, ele se defendeu das acusações de que tem um sítio em Atibaia (SP) e um triplex no Guarujá - "só se eu tiver um triplex do Minha Casa, Minha Vida, porque é um triplex de 200 metros quadrados" -, fez críticas ao Ministério Público e ao promotor Cássio Conserino e apelou para que os petistas apoiem a presidente Dilma Rousseff, "porque ela não vai conseguir resolver os problemas sozinha".

"Por mais que tenhamos problemas com alguma pessoa desse governo, esse governo é nosso", disse Lula. "A gente não pode virar as costas e dizer ‘o problema é seu’. O problema é nosso! É seu, é meu, é da Dilma", acrescentou, depois de citar problemas na economia. Após uma semana tensa entre a presidente e a legenda, Lula afirmou ainda: "A Dilma precisa ter certeza de uma coisa: o lugar dela é do nosso lado. Ela precisa de nós para poder sobreviver aos ataques que vêm sofrendo no Congresso Nacional".

Segundo Lula, "[o PT pode] divergir o que tiver que divergir, falar o que tiver que falar, porque um partido não precisa concordar com tudo o que o governo faz, nem o governo precisa concordar com tudo o que o partido faz. Mas a gente tá junto". Em discurso neste sábado em Santiago, no Chile, a presidente rebateu críticas de petistas sobre o acordo que a presidência fez com o PMDB e a oposição para aprovar o projeto do senador José Serra (PSDB-SP) sobre o pré-sal. "Eu não governo para o PT", disse.

'MP faz jogo da imprensa' - Lula negou ser dono do sítio em Atibaia (SP), que é alvo de investigação em duas frentes - da Operação Lava Jato e do Ministério Público de São Paulo -, e de um apartamento no Guarujá, litoral paulista. "Eu ando acabrunhado – de saco cheio – com o comportamento dos nossos inimigos, da nossa imprensa. Eu não imaginava ver um Ministério Público fazendo o jogo da imprensa, da Veja", desabafou.

"Eu sou acusado de ter um triplex do Minha Casa, Minha Vida, porque é um triplex de 200 m²", brincou. "Eu quero saber como vai ficar essa história. Porque eu disse que não tenho, a imprensa diz que eu tenho. E um cidadão do Ministério Público segue ipsis litteris o que diz o Globo", completou, em referência ao promotor Cássio Conserino, alvo de ação do PT no Conselho Nacional do Ministério Público e autor de investigação sobre o triplex e o sítio.

"Agora, como Deus escreve certo por linhas tortas, inventaram uma empresa no Panamá, uma tal de offshore. Eu nem sei o que é isso. Isso deve ser coisa para enganar pobre. Disseram que uma empresa offshore era dona do tal meu apartamento, e o que aconteceu? Ela era na verdade dona do triplex em Paraty e do helicóptero da Globo", disparou Lula. "E a Globo, que fala tanto em democracia, intimou todos os blogueiros a não falar mais nessa história", lembrou.

Sobre o sítio, Lula declarou: "Todo mundo aqui conhece o Jacó Bittar, meu companheiro. Ele inventou de comprar uma chácara, fez uma surpresa para mim. Jacó e meus companheiros quiseram comprar a chácara para me fazer surpresa. Quando terminarem esses processos, eles vão ter que me dar um apartamento e uma chácara. Estão todos os dias tentando levar a um desgaste moral".

O ex-presidente também citou uma denúncia publicada no Blog da Cidadania, de que a nova fase da Lava Jato, que deverá ser deflagrada na próxima segunda ou terça-feira, terá ele e sua família como alvo. "Eu recebi uma informação de que a partir de segunda-feira vão quebrar meu sigilo fiscal, telefônico, do meu filho, da Marisa. Eu só quero que depois que isso acabar, eles me deem um atestado de idoneidade porque eu duvido que tenha algum deles mais honesto do que eu".

"Hoje, os juízes têm medo de votar com medo da manchete do jornal", atacou Lula. "E um país nunca vai ser sério se um ministro do STF, do STJ, do TCU ficar com medo da opinião pública. Hoje, primeiro a imprensa condena. Não dá para primeiro a Globo saber da notícia para depois o advogado saber", protestou.

Sobre as eleições de 2018, Lula voltou a dizer que não é candidato, mas que "se for necessário, se vocês entenderem que a manutenção do projeto [do PT] corre risco, eu quero dizer em alto e bom som: eu estarei com 73 anos e com tesão de 30 para ser candidato a presidente da República".

sábado, 27 de fevereiro de 2016

LULA, MARISA & LULINHA NO MP

A força-tarefa do MP de São Paulo intimou ontem (26), Lula, Marisa Letícia e o filho Fábio Luiz a prestarem depoimento na próxima quinta-feira 3, na investigação sobre o triplex do Guarujá.

Além da convocação de Lulinha, o MP alterou a ordem dos depoimentos. Marisa falará primeiro, às 9h. Depois será a vez de Lula, às 11h, seguido de Lulinha, às 13h.

E o mais importante: "Em caso de não comparecimento importará na tomada de medidas legais cabíveis, inclusive condução coercitiva pela Polícia Civil e Militar."

Moro prorroga prisão de João Santana e de sua mulher

O juiz federal Sergio Moro decidiu ontem (26) prorrogar por cinco dias a prisão do publicitário João Santana e da mulher dele, Mônica Moura, além da funcionária da Odebrecht Maria Lúcia Tavares. Moro atendeu ao pedido da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

Os três foram presos na 23ª fase da Operação Lava Jato, conhecida como Operação Acarajé. Segundo a PF, há indícios de que o publicitário João Santana recebeu R$ 4 milhões da empreiteira Odebrecht no Brasil.

Para a polícia, os fatos divergem da versão apresentada pelo casal nos depoimentos prestados nesta semana. A suspeita é que o dinheiro tenha origem no esquema de desvios na Petrobras.
Leia também> Empresas de Santana e sua mulher lucraram R$ 115 mi em 4 anos

Polícia Federal vai investigar FHC por envio de dinheiro para o exterior

A Polícia Federal abriu inquérito ontem (26) para investigar a ocorrência de "eventuais ilícitos criminais", conforme nota do Ministério da Cultura, a respeito de evasão de divisas praticadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A investigação se baseia em entrevista da ex-amante de FHC, a jornalista Mirian Dutra Schimidt concedida ao jornal "Folha de S.Paulo" no dia último dia 17. O inquérito tramitará em sigilo, na forma da legislação em vigor.

De acordo com Mirian, o ex-presidente utilizou a empresa Brasif Exportação e Importação para enviar dinheiros para ela e para seu filho. A Brasif era uma concessionária das lojas duty free em aeroportos brasileiros na época do governo de Fernando Henrique.

Segunda-feira (22), o ex-presidente classificou como "invenção" e "coisas menores" as denúncias de que ele teria usado a Brasif para enviar ao exterior dinheiro para Mirian Dutra, com quem manteve um relacionamento extraconjugal, e para o filho dela, Tomás Dutra. "Não tem fato. O que foi que eu fiz de errado? Nada. Vocês estão insistindo em um tema que não existe. É invenção, não sei de quem. São coisas menores. Estou preocupado com o Brasil", disse FHC.

O ex-presidente destaca que ainda não ter "denúncia nenhuma" e que a própria empresa disse que não é verdade. FHC acrescentou não ter nada a "temer e esconder" e voltou a afirmar que a relação com a jornalista "pertence ao âmbito pessoal".

PT/Dilma: Rumo ao beco sem saída

Editorial - Estadão
O crescente desentendimento entre Dilma Rousseff e o PT beira o rompimento e demonstra, dramaticamente, que, excluída a possibilidade de uma solução heterodoxa como a formação de uma frente ampla de salvação nacional – na verdade, uma quase impossibilidade nas atuais condições politicas –, o País vai continuar se afundando na crise política, econômica e moral, com graves consequências na área social. Até onde a vista alcança, é um beco sem saída. E os maiores responsáveis por esse desastre são a própria chefe do governo e seu partido, que não conseguem o mínimo que deles se poderia esperar: que se entendam para dar um governo ao País.

Mas por que Dilma e o PT não se entendem? Há quem diga, entre eles muitos petistas apavorados com seu próprio futuro político, que as divergências são de natureza ideológica, uma vez que, pressionada pela crise, Dilma estaria tendendo a adotar medidas de caráter “liberal” não só para promover o necessário ajuste das contas públicas, como para incentivar a retomada do crescimento econômico. Seriam dois exemplos disso a reforma da Previdência na qual Dilma insiste e a recente aprovação pelo Senado, com apoio hesitante do Planalto, de uma versão atenuada do projeto, de autoria do senador José Serra, que reduz a participação compulsória da Petrobrás na exploração do pré-sal. Mas não é nada disso.

Ideologicamente, Dilma e o PT sempre estiveram perfeitamente identificados na volúpia estatista e no desprezo pela economia de mercado. A triste história da “nova matriz econômica” comprova isso. As divergências sérias começaram a partir do início do segundo mandato, quando o PT se deu conta de que a situação se deteriorava rápida e perigosamente e impunha-se a adoção urgente de uma estratégia capaz de garantir a sobrevivência do partido com um mínimo de competitividade eleitoral, tendo em vista as eleições municipais deste ano e, principalmente, o pleito presidencial de 2018.

Na definição dessa estratégia teve papel predominante, como não poderia deixar de ser, o ex-presidente Lula, que sabe gravemente ameaçada sua pretensão de voltar ao Planalto em 2018. De início Lula ainda se deu ao trabalho de fazer com Dilma o jogo duplo em que é especialista. Hoje, ainda procura manter as aparências de um bom relacionamento com a ex-pupila. Mas é apenas jogo de cena, porque a estratégia de sobrevivência petista baseia-se em dois fundamentos que nada têm a ver com a responsabilidade que as urnas atribuíram ao PT de dar sustentação política ao governo.

O primeiro fundamento da estratégia petista é, por meio da transferência de responsabilidades – à conjuntura internacional, à oposição “de direita”, à “mídia golpista” e, in extremis, à própria Dilma –, tentar dissociar o PT de tudo o que o ligue ao atoleiro em que meteu o País. O segundo é voltar-se inteiramente para suas bases populares, hoje constituídas essencialmente de entidades e organizações sociais que o partido de algum modo subsidia e mantém sob sua influência, com a radicalização do velho discurso populista do “nós” contra “eles” que implica o alinhamento incondicional com as “causas populares”, os “direitos dos trabalhadores” e a luta contra as “injustiças sociais”. São bandeiras que o PT tem a pretensão de considerar exclusividades suas.

Além disso, para explorar politicamente um tema que ainda empolga uma minoria de brasileiros que se declaram eleitores de Lula, o PT acena a bandeira da defesa de seu grande líder contra a “perseguição política” de que ele é alvo por parte de agentes públicos “cooptados pela direita”.

Em resumo, Lula e o PT estão preocupados com suas sobrevivências e dispostos a pagar o preço – mesmo ao custo de algumas “boquinhas” na administração pública – de assumir o papel de oposição a Dilma Rousseff e seu governo. A esse ponto chegaram os outrora companheiros.

Tudo isso demonstra, mais do que a instabilidade, a precariedade moral do atual quadro político. O quadro é tão imponderável que não será surpresa se PT, CUT, UNE, MST e congêneres, para não perderem o hábito plantado no caldo de cultura da democracia, saírem às ruas exibindo novas faixas: “Fora, Dilma!”.

CBF deve ser alvo de 'limpeza' de novo presidente da Fifa

Apesar de o presidente interino da CBF, Antonio Carlos Nunes, ter comemorado a vitória do novo chefe da Fifa ontem (26), o suíço Gianni Infantino (foto) não deve dar boa vida aos dirigentes da confederação brasileira.

Investigado pelo Comitê de Ética da Fifa e pelo FBI, Marco Polo Del Nero deverá ser um do alvos da limpeza que o cartola pretende promover.

O presidente licenciado da CBF é suspeito de integrar um esquema de recebimento de propina na venda de direitos de torneios no país e no exterior. Del Nero integrava o Comitê Executivo da Fifa.

Apesar de nos bastidores sinalizar com um acordão aos eleitores, Infantino não perdoará os já investigados pelo FBI, mas não pretende levantar novos escândalos. "Foi uma vitória esperada e festejada pelo Brasil e pelos demais países da Conmebol [Confederação Sul-Americana de Futebol]", disse Nunes à Folha, pouco depois de deixar o centro de convenções em Zurique.

Coronel Nunes, como gosta de ser chamado, tietou Infantino antes da eleição. No hall de entrada, o suíço foi cercado pela comitiva brasileira que fez questão de tirar foto com o então futuro presidente da Fifa.

No encontro, os brasileiros disseram que votariam no suíço. Durante toda a semana, Nunes fez suspense sobre o seu voto.

Os países da América do Sul ameaçavam votar no xeque Salman abi al-Khalifa, do Bharein, cuja candidatura registrou crescimento na reta final da eleição.

Militar reformado da Polícia Militar do Pará, Nunes é fanático por fotografias. Ao ser eleito vice da CBF, ele fez questão de se sentar na cadeira do presidente e pediu para a neta fotografá-lo.

No segundo turno em Zurique, diante da votação apertada, o suíço foi encontrar os brasileiros e pediu novamente o apoio deles. Ele vencera a primeira fase por apenas três votos (88 a 85) de vantagem para o xeque Salman abi al-Khalifa.

"Ele nos encontrou e pediu, em português, para mantermos o apoio", disse o presidente da Federação Baiana de Futebol, Ednaldo Rodrigues, que integrou a comitiva brasileira.

Logo após o resultado, coronel Nunes e Fernando Sarney, representante brasileiro no Comitê Executivo da Fifa, deixaram o centro de convenções às pressas. Ele seguiram para o aeroporto para embarcar para o Brasil.

Os dois não ficaram nem para a festa da vitória. Já Rodrigues e o presidente da Federação de Futebol do Acre, Antonio Aquino, o Tuniquim, ficaram para a festa. "O mundo exige essa mudança. Venceu o melhor", disse Tuniquim, que comanda o futebol praticamente amador do Acre há mais de 30 anos. (Folha de SP)

Iminente reforma do ensino vai tornar milhões de livros obsoletos

Por Ruy Castro, escritor e jornalista. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros.
Cenas de um provável futuro. A mãe repreende a filha de 11 anos por ela nunca lavar um copo depois de usá-lo, e ouve como resposta: "Mamãe, precisamos problematizar uma questão de gênero". A garota quer dizer que não veio ao mundo para lavar copos. Enquanto isso, seu irmãozinho de oito anos pode ser reprovado na escola por ter fracassado na arguição sobre sublevações intestinas na África Subsaariana. E o pai já pensa em contratar um professor particular de gê e tupi para o menino tirar o atraso na escola.

Esses são alguns dos itens dos currículos a ser aplicados pelo MEC com a iminente aprovação da "Base Nacional Comum Curricular", uma reforma do ensino destinada a fazer do brasileiro um povo politicamente correto. No país dos novos comissários do pensamento, só interessam a herança ameríndia e africana, a luta das mulheres, os direitos das minorias e outros quesitos cuja importância ninguém discute, mas que os donos do poder julgam ser de sua exclusiva propriedade.

Acusam-se os historiadores brasileiros, por exemplo, de nunca terem dado atenção suficiente à questão indígena e negra. Mas isso não é verdade. Há bibliotecas abarrotadas de livros sobre a África, o tráfico, a vida em cativeiro e como, contra todas as probabilidades, a cultura negra sobreviveu e se impôs junto à cultura "oficial" no Brasil. Os indígenas também têm vasta bibliografia, com destaque para os livros sobre as tribos da Guanabara –como o recente e monumental "O Rio Antes do Rio", de Rafael Freitas da Silva, cuja dedicatória é reveladora: "Aos nossos gregos, os tupinambás".

Mas não importa. O MEC decidiu que é preciso rever tudo, o que fará com que milhões de livros didáticos se vejam superados e multidões de professores tenham de se reciclar ou ser substituídos. O jeito é problematizar a questão.

Vale a pena ler: Xadrez da cassação

Por André Singer - colunista do jornal Folha de SP
A espetacular prisão de João Santana, em timing cada vez mais calculado, joga, não por acaso, lenha grossa na fogueira de novas eleições para presidente e vice este ano. Apanha Dilma em curso de perigoso isolamento, ao mesmo tempo em que a alternativa do impeachment continua queimada pelos erros de Michel Temer e pela imagem de Eduardo Cunha. Nesse contexto, a "operação derruba chapa" procura pressionar o frágil colegiado do TSE a cassar os vitoriosos em 2014.

A estratégia dos enxadristas da Lava Jato combina duas linhas de força. De um lado, plantam devagar cerco que imobiliza o ex-presidente Lula. De outro, avançam rápido na direção de comprometer a presidente da República. Lembro que o anterior fato espetaculoso, também preparado com esmero, foi a prisão "em flagrante" do líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral. Ressalte-se: do governo.

Os erros que Dilma comete contribuem para a eficácia da estratégia. Na medida que o ex-presidente fica na berlinda, aumenta a tentação da atual mandatária salvar-se por conta própria. Há indícios de que o Planalto cedeu à ilusão de que se cumprir o programa liberal completo receberá salvo conduto para cumprir o resto do mandato, mesmo que Lula e o PT se estrepem.

Trata-se de miopia. Quanto maiores forem as concessões, maiores serão as exigências, sem qualquer apoio sólido em troca. Basta ver o que foi o programa do PMDB, que pretende liderar a reforma liberalizante, anteontem na TV. O partido se colocou de maneira aberta a favor da solução argentina, com Temer procurando aparecer como o Macri brasileiro. Dilma que se estoure.

A detenção de Santana, como era de se esperar, reativou a pressão pró-impeachment dos peemedebistas, que daria lugar a um governo Temer. Ocorre que, além do percalço menor da desastrada carta sentimental do vice em novembro passado, o navio do PMDB também está torpedeado pela Lava Jato. A presença destacada de Cunha no horário político desmonta toda a credibilidade do peemedebismo.

Ao separar-se de Lula, Dilma serra o galho no qual está precariamente sentada. A ameaça de conter os aumentos do salário mínimo e de reduzir a participação da Petrobras no pré-sal alienam os últimos redutos de apoio à presidente reeleita. Consultado, o antigo mandatário não a deixaria bater de frente com os movimentos sociais. Não será surpresa, se a presidente adotar a defesa de que, se houve problemas nas contas da campanha, elas seriam de responsabilidade do PT, sem que ela nada soubesse. Completaria, assim, o isolamento em que se meteu, sem perceber que o lance seguinte consistiria no xeque-mate.

PT ataca ajuste de Dilma e propõe volta à política econômica de Lula

 
 O presidente do PT, Rui Falcão, discursa ao lado do ministro Jaques Wagner
O PT atacou o ajuste fiscal do governo Dilma Rousseff e propôs ontem (26) um "programa nacional de emergência" para mudar a política econômica.

O texto, aprovado pelo diretório nacional do partido, pede a redução dos juros, o aumento do gasto público e o uso das reservas cambiais para financiar obras.

Os petistas também defenderam um reajuste de 20% no Bolsa Família e a elevação de impostos sobre os mais ricos. "A lógica das propostas é retomar o núcleo da política econômica do governo Lula", resumiu o presidente do partido, Rui Falcão.

O programa petista faz duras críticas à política econômica adotada após a reeleição da presidente Dilma Rousseff, em 2014. O texto diz que o ajuste fiscal "não teve os resultados esperados, ao menos no que diz respeito aos interesses das camadas populares".

Para taxar os mais ricos, o PT propôs o aumento dos impostos sobre herança e grandes fortunas, a tributação de lucros e dividendos e a cobrança de IPVA sobre iates e aviões. Numa rara concordância com o governo, o partido também defendeu a recriação da CPMF.

Nos debates internos, houve críticas ao ministro Nelson Barbosa (Fazenda), que substituiu Joaquim Levy em dezembro do ano passado.

Mal-estar: Os petistas se queixaram da possível ausência de Dilma no 36º aniversário do PT, neste sábado. Ela está no Chile.


O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) reclamou do aval do Planalto às mudanças na lei do pré-sal, aprovadas pelo Senado na quarta-feira (24). "A Dilma está querendo se distanciar do PT. É um movimento consciente", afirmou. A direção do PT tentou contemporizar. Ao abrir o debate, Falcão pediu moderação nas críticas ao Planalto.

O ministro Jaques Wagner (Casa Civil) disse que a posição de Dilma sobre o pré-sal nunca mudou e que o governo vai trabalhar para que a exclusividade da Petrobras seja mantida na Câmara.

Em outra resolução, o PT apontou "ameaça à legalidade democrática" na Operação Lava Jato. O texto protesta contra "delações sem prova, vazamentos seletivos e investigações unilaterais".

O documento diz que o ex-presidente Lula é vítima de uma campanha "vil e asquerosa" para impedi-lo de disputar as eleições de 2018. O PT também criticou a retomada da ação do PSDB no Tribunal Superior Eleitoral que pede a cassação da chapa vitoriosa em 2014. Na reunião fechada, Jaques Wagner disse que há um "movimento golpista" contra Dilma.

Papo furado: Lula afirma que Bumlai ofereceu reforma em sítio

Vista aérea do sítio frequentado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cidade de Atibaia, no interior de SP, nesta sexta-feira 
Vista aérea do sítio frequentado pelo ex-presidente Lula na cidade de Atibaia
A defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que a reforma do sítio em Atibaia (SP) frequentado por ele e sua família foi "oferecida" pelo pecuarista José Carlos Bumlai, seu amigo pessoal, preso há quatro meses na Operação Lava Jato. A alegação foi feita em petição apresentada ontem (26) ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Os advogados de Lula apontam também que o sítio foi adquirido em 2010 por iniciativa de Jacó Bittar, outro amigo de Lula e um dos fundadores do PT, para que pudesse ser compartilhado com o ex-presidente e seus parentes após o petista deixar a Presidência da República, no final daquele ano.

O local serviria para "acomodar" objetos que Lula teria recebido do "povo brasileiro" durante seus dois mandatos.

O advogado de Bumlai, Arnaldo Malheiros, porém, contesta a versão dos defensores de Lula e  afirmou: "Só se a Odebrecht for propriedade de Bumlai, o que não me consta".

Nesta semana, a Odebrecht admitiu ter ligação com as obras na propriedade ao afirmar que seu engenheiro Frederico Barbosa trabalhou no local a pedido de um superior hierárquico da empresa.

Em entrevista ao jornal Folha de SP, a ex-dona de uma loja de materiais de construção de Atibaia que forneceu produtos para o sítio disse que a Odebrecht bancou parte das obras, que consumiram cerca de R$ 500 mil só em materiais. A construtora nega ter pago por insumos para a reforma.

Segundo a defesa de Lula, antes da formalização da compra do imóvel Jacó Bittar adoeceu e repassou ao filho, Fernando Bittar, "recursos de suas aplicações pessoais" para que a propriedade rural fosse adquirida.

Fernando, porém, não tinha recursos suficientes para pagar o preço do imóvel e "convidou o seu sócio, Jonas Suassuna, a participar da compra, o que foi feito".

Os advogados dizem, porém, que Lula só tomou conhecimento da compra do imóvel em 13 de janeiro de 2011, quando já havia deixado a Presidência da República, e que foi ao local pela primeira vez dois dias depois.

Quanto às obras no sítio, a petição aponta que Lula "tomou conhecimento de que a reforma foi oferecida pelo Sr. José Carlos Bumlai, amigo da família, enquanto Fernando Bittar comentava sobre a necessidade de algumas adaptações no local", de acordo com a defesa.

A reforma foi realizada porque, na época da aquisição, o sítio tinha apenas dois quartos, com instalações precárias, e não acolheria as famílias de Lula e de Bittar, dizem os defensores na petição.

Posteriormente, a obra foi concluída por uma empresa cuja sede fica a cerca de 50 quilômetros de Atibaia, diz a petição.

A propriedade rural de 173 mil metros quadrados (equivalente a 24 campos de futebol) está registrada em nome de Bittar e Suassuna, que são sócios de Fábio Luís, filho mais velho de Lula.

A força-tarefa da Lava Jato investiga as operações relativas ao sítio e suspeita que Lula seja o real dono do imóvel.

No documento protocolado no STF, os defensores do ex-presidente afirmam que "todos os recursos utilizados na compra da propriedade são de titularidade da família Bittar e de Jonas Suassuna e foram pagos em cheques administrativos". As alegações quanto ao sítio foram apresentadas pela defesa ao tribunal para fortalecer o pedido de suspensão das apurações relativas ao sítio até que seja definido se a investigação sobre o imóvel e o tríplex em Guarujá, concluído e reformado pela construtora OAS, deve tramitar no Ministério Público Estadual de São Paulo ou no Ministério Público Federal.
No site "O Antagonista" 
Sem medo do ridículo - Os advogados de Lula disseram ao STF que o sítio em Atibaia foi oferecido a Lula por seu amigo Jacó Bittar.
 
Quando Jacó Bittar adoeceu, seu filho, Fernando, assumiu o negócio, mas como ele não tinha recursos suficientes, "convidou seu sócio, Jonas Suassuna, a participar da compra, o que foi feito". E já que estava dando de presente um sítio de um milhão de reais a Lula, Jonas Suassuna aproveitou também para dar de presente um apartamento de seis milhões de reais a Lulinha. Só a ministra (do STF) Rosa Weber pode acreditar nessa história bisonha.