A partir de hoje, sempre às sextas-feiras, este blog publicará um capítulo do livro "Maromba", obra de ficção escrita pelo poeta Emir Bemerguy, meu querido irmão, falecido em 13.11.2012, e que descreveu o conteúdo do seu ´depoimento romanceado`, assim:
"Mais do que um inconseqüente romance regionalista, este livro representa uma espécie de depoimento romanceado. É uma denúncia que se atenua com a inclusão de elementos supostamente fictícios. Depois de ler os capítulos seguintes, quem conhece, de fato, a Amazônia brasileira, perceberá que o autor conseguiu fazer apenas um desfocado retrato. Em termos de impiedoso esmagamento do homem, a realidade ultrapassa as imagens literárias que tentam, em vão, descrevê-la.
Em sua famosa vilegiatura por estas plagas, Euclides da Cunha aprisionou o imenso espanto que lhe sacudiu a alma, diante de tamanha exuberância desorganizada, numa frase lapidar que, varando os decênios, possui quase a mesma validade inaugural: “Aqui ainda está sendo escrito o último capítulo do Gênesis!”. Parece, em verdade, que a divina ordem – “Submetei a Terra! Dominai-a!” – não foi proferida com volume suficiente para atingir os ouvidos e, sobretudo, os corações daqueles que, ao longo dos séculos, têm manejado os cordéis do poder e as provetas da ciência. Nem Deus haveria gritado com força bastante para ecoar neste fim de mundo!
Volvidos tantos anos, a impressão definitiva que fica, nos sisudos ou gaiatos visitantes da fantástica “Hiléia” de Humboldt, não é muito diversa daquela que siderou o iluminado criador de “Os Sertões”. O homem, por cá, ainda não passa de um renitente intruso, de um penetra que, sem haver sido convidado para a festa, entrou furtivamente pela janela. E continua, em conseqüência do atrevimento, a sofrer as humilhações que atraiu sobre si.
A despeito de inegáveis e estimulantes esforços governamentais – grandes rodovias e importantes obras de infra-estrutura – a Amazônia prossegue esperando e se exaurindo em eternas vésperas de melhores dias. Talvez só mesmo os fanáticos muçulmanos, secularmente doutrinados pelo Alcorão, ostentam um fatalismo com as dimensões da lendária resignação do caboclo amazônico – marca registrada de sua índole acomodatícia.
O conformismo, tantas vezes suicida, de nossos ribeirinhos é ainda mais profundo que o dos flagelados nordestinos. Estes, sofrendo de atávica e incurável mania ambulatória, emigram quando o Sol sabreca o chão e as almas. Os outros padecem horrores em sua “varja” submersa, mas, depois da enchente, com a mesma obstinação sombria, recomeçam tudo, pela enésima vez! Afeito a uma vida que, quanto mais se diversifica, menos deixa de ser exatamente a mesma coisa – suor e pobreza! – o filho dos alagadiços barrentos aceita seu massacrante fadário com a indiferença trágica dos que sabem ser estupidez tentar subir, a nado, uma turbilhonante cachoeira.
Este trabalho, baseado em episódio reais, não apresenta, como nos romances em geral, uma seqüência de fatos que se possa, a rigor, considerar “enredo”. O fim de um capítulo não conduz, necessariamente, ao início do outro, pois aqui se reúnem eventos isolados que pretendem apenas fornecer um painel do ramerrão amazônico. Seriam, no máximo, fragmentos de um romance cósmico, tão abrangente que nem o genial Euclides da Cunha se atreveu a escrevê-lo, preferindo dissecar a paisagem mais agressiva, porém menos complexa e desafiadora, das caatingas esturricadas. Procurou-se, portanto, nesta obra, fixar momentos de uma rotina que, embora desumana e espantosamente opressora, é tão conhecida que não assusta a mais ninguém – pelo menos dentro do atordoante labirinto de rios, florestas, igapós, furos, lagos, paranás e igarapés. É que o diuturno confronto com a miséria acaba encouraçando as almas: aprende-se a ver, nela, uma presença antipática, aterradora mesmo, porém inevitável. Exemplo perfeito de convivência dos contrários. Afinal, a nenhuma outra área do mundo se aplica tão justamente como à nossa Amazônia, a frase de José Américo de Almeida, colocada no prólogo de “A bagaceira”: “Há miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã!”. Sim. Sucumbe-se, de estômago vazio, em pleno... “Celeiro do Mundo!”."
Leiam o primeiro capítulo aqui >Maromba - de Emir Bemerguy - Primeiro capítulo

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