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domingo, 6 de março de 2016

O risco de mais um partido de caciques sem índio

Por Roberto Romano, professor da Unicamp
Com a Operação Aletheia (verdade ou desvelamento na língua grega) ocorre uma cirurgia muito delicada, similar à que ocorre quando se quer fornecer independência a gêmeos siameses. O corte agora é entre a pessoa do líder Luis Inácio da Silva e o Partido dos Trabalhadores. De fato, ao longo dos anos existiu uma simbiose muito peculiar entre o PT e a pessoa física de Lula. Na década de oitenta do século 20, em manifestações ocorridas no Brasil todo, o refrão entoado pela massa petista era o seguinte: 'com Lula, ou sem Lula, todos nós somos o Lula'. Versão pequena, claro, da farsa absolutista atribuída a Luís XIV: 'O Estado sou eu'. Criticar Lula, até hoje, era atacar o PT e vice versa.

A propaganda de João Santana reforçou tal enlace, com as figuras do 'Lula fortão' e do 'Lula fraquinho'. Quem era vencido pelo primeiro, nada significaria para a vida política; quem se levantasse contra o segundo, era covarde passível de ser denunciado por crime de lesa majestade. O auge do Lula fortão foi quando, em pesquisas de opinião nutridas pela propaganda sistemática e cara, ele recebeu 80% de aprovação popular.

Mas, numa época em que mudanças ocorrem muito rapidamente, para o melhor ou pior, de modo célere a massa popular beneficiada por programas como Bolsa Família e outros passou a sofrer os resultados de uma política econômica imprudente. E vieram os milhões de desempregados no mesmo instante em que a propalada 'nova classe média'(outra propaganda eleitoral) voltou à situação de inadimplência e falta absoluta de recursos. Some, pois, como areia, a base social que servia de fortaleza para o PT e seu líder único.

Outro resultado da simbiose mencionada antes, é o fato do PT intencionalmente ter boicotado a ascensão de muitos quadros seus ao papel de liderança nacional. Ninguém poderia competir com o Egocrata. Assim, na situação de hoje, caso Luis Inácio da Silva seja sancionado negativamente pela Justiça, é de total falta de líderes nacionais de peso, no campo petista. Tal fato pode ajudar no desmantelamento do que restou do partido.

A partir de seu sucesso na política tradicional, com os cargos assumidos nos vários poderes, o PT se descuidou da sua militância de base. Nos últimos tempos, sequer a aparência de consulta às bases foi mantida. Lula tirou sua sucessora do bolso do colete, sem consulta real às bases. O mesmo, piorado com o abraço em Paulo Maluf, foi feito com o candidato a prefeito de São Paulo.

Se o PT quiser apresentar para si mesmo algum futuro, o passo mais urgente é convocar um Congresso Nacional com seus militantes (os que restam) para reescrever seu programa, examinar seus modos de atuação, erros e acertos. Caso contrário, será mais um partido de caciques sem índio a caminhar, rápido, para o seu final inglório.

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