Fale com este blog

E-mail: ercio.remista@hotmail.com
Celular/watsap: (91) 989174477
Para ler postagens mais antigas, escolha e clique em um dos marcadores relacionados ao lado direito desta página. Exemplo: clique em Santarém e aparecerão todas as postagens referentes à terra querida. Para fazer comentários, eis o modo mais fácil: no rodapé da postagem clique em "comentários". Na caixinha "Comentar como" escolha uma das opções. Escreva o seu comentário e clique em "Postar comentário".

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Perder ou perder

Por Nelson Motta - O Globo
Só o desespero pode chamar de “golpe judiciário-parlamentar-midiático” se a maioria do Legislativo, com aprovação do Judiciário, a imprensa livre, a OAB, a Fiesp e 69% da população apoiam o processo legal de impeachment da presidente por crimes de responsabilidade fiscal que quebraram o país. Mas se é judicial-legislativo-midiático-empresarial-jurídico-popular... que golpe de araque é esse? Só faltaram o Exército, a Igreja e a CIA... rsrs.

No sufoco, o senador Humberto Costa até cunhou o oximoro “golpe constitucional”, porque, se é constitucional, não pode ser golpe, e vice-versa. O STF, com a maioria de seus ministros nomeados por governos petistas, aprovou um rito para o processo de impeachment, em que a presidente terá ampla defesa e poderá, como Bill Clinton, perder na Câmara e ser absolvida no Senado. Mas se for condenada, será golpe? Ou nem pode ser julgada?

Sou contra qualquer forma de golpe, mas também não acredito que um impeachment, mesmo cumprindo todos os processos legais, seja a melhor solução. Pior do que está, não fica, mas temo um governo Temer apoiado pela bandidagem do PMDB e por partidos com mais de cem parlamentares loucos para melar a Lava-Jato em nome de uma conciliação nacional que também pouparia Renan, Cunha e os petistas. Mas como? Ah, eles são muitos, andam em bandos, se alimentam de verbas públicas e se unem quando ameaçados.

Talvez o melhor, ou menos pior para o país, seja a chapa Dilma-Temer ser impugnada pelo TSE, com irrefutáveis provas de doações ilegais, e convocadas novas eleições. Ou Dilma propor ao Congresso: eu renuncio, mas vocês também. E o Congresso, movido por espírito público... rsrs... renuncie e seja completamente renovado nas eleições. Seria uma chance de nascer um novo Brasil zero bala.

Mas, cuidado com seus desejos, eles podem se realizar. No caso, com duas ameaças sinistras: o ódio aos políticos eleger um presidente messiânico e populista, desastroso para o país como Collor e Jânio. E a máxima de Ulysses Guimarães, confirmada pela História: cada novo Congresso é sempre pior do que o anterior. É perder ou perder.

‘Meu Deus do céu! Essa é a nossa alternativa de poder’, diz Barroso sobre PMDB

Em meio à crise política e às discussões sobre o impeachment, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), lamentou ontem (31)a a falta de alternativa para comandar o país – e citou como exemplo foto publicada pelos jornais quarta-feira (30) em que caciques do PMDB anunciaram a debandada do governo. A declaração foi dada a alunos da Fundação Lemann, que foram recebidos em audiência por Barroso no tribunal.

A conversa com os estudantes ocorreu no plenário da Primeira Turma do STF. O ministro não sabia, mas o sistema interno de TV do tribunal transmitiu a primeira parte do encontro. Quando, anteontem, o jornal exibia que o PMDB desembarcou do governo e mostrava as pessoas que erguiam as mãos, eu olhei e: Meu Deus do céu! Essa é a nossa alternativa de poder. Eu não vou fulanizar, mas quem viu a foto sabe do que estou falando — disse Barroso.

A foto à qual o ministro se referia estampava figuras notórias do partido – em especial, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (RJ), o senador Romero Jucá (RR) e o ex-ministro da Aviação Eliseu Padilha.

— O problema da política neste momento eu diria é a falta de alternativa. Não tem para onde correr. Isso é um desastre. Porque, numa sociedade democrática, a política é um gênero de primeira necessidade. A política morreu. Talvez eu tenha exagerado, mas ela está gravemente enferma. É preciso mudar — concluiu.

Quando soube que estava sendo televisionado, Barroso ficou contrariado. — Pede pra desgravar. Tá transmitindo, paciência, mas para não ter uma fita — declarou — Mas quem é que está assistindo isso? Podia ter avisado mais rápido, né?

Antes de saber da transmissão de sua fala, o ministro criticou o sistema político brasileiro de forma geral. — Nós nos perdemos em muitos caminhos diferentes. A política morreu. Nós temos um sistema político que não tem o mínimo de legitimidade democrática, deu uma centralidade imensa ao dinheiro e à necessidade de financiamento e se tornou um espaço de corrupção generalizada — afirmou, e ressaltou: — Estou falando aqui em um ambiente acadêmico, como se eu estivesse falando com os meus alunos.

Ainda durante a conversa, Barroso disse que o modelo político “é um desastre” – particularmente, a forma de eleição para a Câmara dos Deputados, feita em eleição por voto proporcional em lista aberta. Segundo o ministro, esse modelo é caro, porque precisa haver campanhas em todos os estados, e também porque as vagas são ocupadas pelos mais votados dos partidos.

— Menos de 10% dos candidatos são eleitos com votação própria. Nesse sistema, o eleitor não sabe quem ele elegeu, porque 90% dos eleitos não foram eleitos com voto próprio. E o eleito não sabe quem o elegeu pela mesma razão. É um sistema em que o eleitor não tem de quem cobrar e o eleito não tem a quem prestar contas, não pode funcionar — criticou.

PMDB: Renan Calheiros diz que reunião que decretou rompimento foi 'precipitada'

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL)
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirmou ontem, 31, ter considerado "precipitada" a reunião da Executiva Nacional do PMDB que determinou o rompimento formal do partido com o governo. Segundo ele, havia um acordo firmado na reunião da convenção do partido, que no dia 12 reelegeu o vice-presidente Michel Temer para mais um mandato à frente da legenda, de não se votar na ocasião moções.

Contudo, Renan disse que aquele ato "surpreendeu" pois se votou a moção que dava inicialmente 30 dias de prazo para decidir se mantinha o apoio ao governo. A apreciação dessa moção foi antecipada pela Executiva Nacional para a terça-feira (29), ocasião em que a direção partidária aprovou um texto que determinava a "entrega imediata" dos cargos na gestão Dilma Rousseff.

"É evidente que isso (a decisão do rompimento) precipitou reações em todas as órbitas: no PMDB, no governo, nos partidos da sustentação, nos partidos da oposição, o que significa em outras palavras, em bom português, não foi um bom movimento, um movimento inteligente", criticou Renan, em entrevista após participar de uma solenidade no plenário do Senado sobre a participação feminina na política.

O presidente do Senado fez questão de destacar que, quando o PMDB reelegeu Temer como presidente na chapa única, o partido demonstrou uma "férrea unidade", mostrando que pode estar unido mesmo na adversidade. Ele disse que a avaliação de que a reunião que levou ao rompimento foi um movimento "pouco calculado" é feita independentemente do que vai ocorrer em relação aos ministros do partido que ainda não deixaram os cargos.

Renan repetiu que não tem acompanhado a discussão em torno da ocupação do PMDB na Esplanada a fim de resguardar a independência e isenção da instituição que preside. Ele disse que, mesmo tendo encontrado com três ministros do partido, após o encontro da Executiva na terça-feira, não sabia naquela ocasião nem sabe hoje qual decisão cada um vai tomar. Ele se reuniu com Eduardo Braga (Minas e Energia), Kátia Abreu (Agricultura) e Helder Barbalho (Portos).

O peemedebista preferiu não comentar se há uma "pressa" da parte do PMDB em sentar na cadeira de presidente da República.

Oposição. O presidente do Senado disse que, embora não fale pelo partido, não acredita que o PMDB vá para a oposição caso o impeachment de Dilma não seja aprovado pelo Congresso. Ele afirmou que não vê, em qualquer cenário, que a legenda vá liderar uma corrente antigoverno no Parlamento. Para ele, a maioria parlamentar já está tão difícil de se formar e será mais ainda se o PMDB se ausentar.

"Eu acho que não (o PMDB ir para a guerrilha) porque, na medida em que você permite a radicalização das posições, você deixa de defender o interesse nacional e quando você abre os olhos apenas para a disputa de poder e fecha os olhos para a defesa de valores como a democracia, a liberdade, a governabilidade, você sem dúvida inverte os papéis", avaliou.

Num mato sem cachorro

Por Eliane Cantanhêde - Estadão
Se Dilma já deu o Ministério da Saúde para o deputado Marcelo Castro enfrentar zika, chikungunya, dengue e H1N1 quando o PMDB ainda era oficialmente governo, o que ela não dá agora para tentar amarrar o PP, o PR, o PSD e outros ao pé claudicante de seu governo? É um festival de ministérios, estatais e cargos de segundo e terceiro escalão, não mais pelo natimorto ajuste fiscal, mas para tentar evitar o impeachment.

Imagine-se como Dilma delegou para Leonardo Picciani um dos cargos mais sensíveis da República. “Querido, quem você tem aí para a Saúde?”. Ele, rastreando a bancada do PMDB: “Olha, presidenta, tem lá um tal de Mauro de Castro, ou Marcelo, não sei direito. Parece que tem diploma de médico”. E ela: “Feito!”.

O Aedes aegypti adorou, mas nem por isso Dilma garantiu o apoio do PMDB do Rio, que votou alegremente pelo rompimento com o governo. E quem anunciou a traição foi o pai do Piccianinho, Jorge Picciani. Agora, o constrangimento: Marcelo de Castro não serviu nem para matar mosquito nem para assegurar o PMDB do Rio, mas se agarra ao cargo como jabuticaba no pé, até que surja alguém de mais serventia.

Parece ficção, mas tem muito de realidade e vai se repetir dezenas de vezes no Planalto, transformado ora em feira, ora em bunker, ou num hotel não muito longe dali, onde funciona o feirão de cargos do ex-presidente Lula. O fato é que o PP, o PR e os partidos menores, mas tão gulosos, estão em alta em Brasília. Aliás, o voto é que está em viés em alta.

Quanto mais o dólar cai, sob a perspectiva de impeachment, mais o preço dos deputados e senadores do “centrão” e do “centrinho” dispara. É a lei do mercado: a oferta de votos contra o afastamento de Dilma está menor do que a demanda do Planalto. Logo, o negócio está o olho da cara. Ou é falta de vergonha na cara?

O risco é Dilma conseguir barrar o impeachment, mas arrastar um governo de xepa, com centenas de oportunistas, um ministro qualquer na Saúde para evitar mortes por dengue e microcefalia por zika, outro no Esporte passando ao largo da Olimpíada, um terceiro no Turismo quando milhões de estrangeiros desembarcarem para o maior evento esportivo da face da Terra. E com um bilhão de telespectadores no mundo mirando os jogos e o Brasil.

A prioridade de Dilma não é governar, é manter o governo a qualquer custo. O foco não é restaurar a economia aos cacos, corrigir as contas públicas, combater as doenças, cuidar de saúde, educação, turismo... Toda a energia está voltada para um único fim: salvar o mandato, com o bordão do “golpe”.

Apesar de todas essas evidências, claras como um dia de verão, há ainda muitas nuvens pairando sobre a sociedade brasileira e o Congresso, responsável constitucional para decidir se Dilma sai e Michel Temer entra, ou se tudo fica como está. O PMDB não ajuda muito a dirimir as dúvidas. Não bastasse um Eduardo Cunha réu no Supremo e um Renan Calheiros enfrentando sete inquéritos, há o fantasma da divisão interna que assombra o maior partido do país desde sempre.

Após o rompimento por aclamação (o voto a voto iria materializar a dissidência), veio o vexame e a humilhação, com Renan respaldando e os ministros do partido implorando para manter suas boquinhas. Kátia Abreu à parte – está na Agricultura menos pelo PMDB e mais por Dilma e pela representatividade no setor –, os outros cinco tremem até Dilma decidir: uni duni tê, quem fica é... você!

Se Dilma está nas mãos dos mais fisiológicos entre os fisiológicos, Temer foi solapado por Renan, o que só aumenta a dramaticidade da novela: se não une nem mesmo o PMDB, como o vice pode acenar com um “pacto nacional” em torno da transição e do enfrentamento da crise? A cachorrada se dá bem, mas o País está num mato sem cachorro.

Os vendilhões do Planalto

Editorial - Estadão
A aprovação ou a rejeição do impeachment de Dilma Rousseff vai depender, exclusivamente, de que os vendilhões do Planalto consigam negociar em número suficiente a mercadoria no momento mais valorizada no cenário político: os votos a serem registrados na sessão plenária que vai decidir a sorte da presidente da República. Pode-se dizer, alternativamente, que o mandato de Dilma vai depender de que parlamentares venais fiquem satisfeitos com o que os traficantes de consciência, tendo à frente Luiz Inácio Lula da Silva, têm a lhes oferecer em troca do voto. E o mais vergonhoso é que essa estratégia de cooptação baseada na corrupção dos valores morais que deveriam prevalecer na gestão da coisa pública – estratégia definida esta semana pelo ministro Jaques Wagner como uma “repactuação” das alianças – foi concebida e é coordenada a partir dos gabinetes do poder e está sendo abertamente discutida nos círculos políticos. Definitivamente, o lulopetismo perdeu de vez a vergonha.

Há porta-vozes de Lula, como o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que até se permitem gabar-se do “sucesso” de suas artimanhas: “Diziam que após o rompimento do PMDB haveria uma debandada e o que estamos vendo hoje é um movimento inverso, vários partidos voltando para a base. O PMDB facilitou o jogo para o governo, que terá agora condições de construir uma maioria (sic) de 200 votos. Não haverá impeachment”.

De qualquer modo, a “repactuação” pela “maioria” de 200 votos vai dar trabalho a Lula e sua tropa de choque, a começar pelos seis Ministérios ocupados pelo PMDB que, pela lógica, já deveriam estar disponíveis para serem negociados por votos na Câmara dos Deputados. Henrique Eduardo Alves, do Turismo, já se demitiu. Até dois dias atrás era dado como certo que três ministros peemedebistas desejavam permanecer nos cargos: Kátia Abreu, da Agricultura, da cota pessoal de Dilma; Marcelo Castro, da Saúde; e Celso Pansera, de Ciência e Tecnologia. Outros três estariam dispostos a renunciar tão logo ultimassem questões pendentes em seus gabinetes.

Ontem, o panorama já era diferente: a despeito da decisão do Diretório Nacional de determinar a “imediata saída”, todos os seis peemedebistas passaram a demonstrar que gostariam de continuar ministros. Ocorre que o Ministério da Saúde, por exemplo, já está sendo negociado com outros partidos, para profunda frustração do controvertido ministro Marcelo Castro. Corre o mesmo risco outro que está agarrado ao cargo com unhas e dentes: Celso Pansera. De qualquer modo, a composição final do Ministério “repactuado” dependerá do que cada aspirante a ascender ou permanecer no cargo poderá oferecer em termos de votos contra o impeachment.

Enquanto isso, na linha da falta de compostura a que o desespero a está levando, Dilma Rousseff voltou, quarta-feira e ontem, a privatizar o espaço público da sede do governo de todos os brasileiros para promover comícios partidários em defesa de seu mandato. E não desperdiçou as oportunidades para elevar o tom na escalada “antigolpe” a que se entregou de corpo e alma. Como a palavra de ordem “impeachment é golpe” ficou desmoralizada pela evidência de que o afastamento é preceito constitucional inquestionável, Dilma foi forçada a fazer uma adaptação no mantra: “impeachment sem crime é golpe”, conforme berrou, com voz cada vez mais esganiçada, sob aplausos delirantes das claques.

Mais uma vez, Dilma age de má-fé e fala bobagem. O impeachment precisa, é claro, ter justificativa legal. Mas a existência ou não dos crimes alegados no pedido de impeachment é uma questão que cabe aos congressistas julgar. A presidente da República tem o direito de se defender, mas não o direito de se antecipar a uma decisão soberana do Congresso Nacional e decretar que o pedido de impeachment, já em tramitação na Câmara, não tem fundamento. Muito menos lhe cabe incendiar o País em benefício próprio. Se tivesse um mínimo de compostura, a desesperada chefe do governo preservaria a dignidade de seu mandato deixando a cargo de seus advogados e correligionários a tarefa de expor, nos foros adequados e com linguagem pertinente, os argumentos de sua defesa.

Mas Dilma só faz o que sabe. Formada na escola do “centralismo democrático”, com aperfeiçoamento no populismo lulopetista, ela acredita que o governante pode tudo, inclusive colocar-se acima da lei.

STF confirma ordem de Teori para que Moro envie à Corte investigações sobre Lula

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por oito votos a dois, confirmar ontema, 31, a liminar do ministro Teori Zavascki ordenando que o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba, remeta ao STF as interceptações telefônicas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e todas as investigações correlatas.  
 
Nos áudios interceptados, Lula aparece conversando com vários interlocutores que só podem ser investigados pelo Supremo, como a presidente Dilma Rousseff. Zavascki reiterou que, quando há envolvimento de autoridade com foro privilegiado em investigação conduzida por uma instância inferior, os autos devem ser enviados à Suprema Corte. "Quem tem que decidir isso é o Supremo. Não se pode tirar do Supremo essa competência. É o Supremo que tem que fazer esse juízo", afirmou Zavascki. 
 
No julgamento desta quinta, o STF não entrou no debate sobre qual parte das investigações de Lula deve ficar com Moro e quais trechos são de competência do STF. Isso será feito em momento posterior. Agora, os ministros apenas confirmam a liminar de Teori para manter, por enquanto, as investigações no Tribunal até que a Corte delibere sobre o desmembramento. O STF ainda tem de decidir, nas próximas semanas, se é válida a posse do ex-presidente Lula como ministro-chefe da Casa Civil. 
 
Acompanharam Teori os ministros Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Dias Toffoli, Carmen Lúcia, Celso de Mello e Ricardo Lewandowski. O ministro Gilmar Mendes não estava presente no julgamento. Apenas os ministros Luiz Fux e Marco Aurélio Mello discordaram parcialmente da decisão de referendar a liminar.
Ambos defenderam que, como Lula não tem foro privilegiado, as investigações contra ele deveriam ser mantidas em Curitiba, e Moro deveria enviar a Brasília apenas as partes que envolvam Dilma e outras autoridades com prerrogativa de serem investigadas pelo Supremo. Fux e Mello concordaram, no entanto, que Moro não poderia ter divulgado os áudios. 
"Não há justificativa plausível para uma divulgação como a que ocorreu nesse processo, divulgação que a meu ver colocou mais lenha em uma fogueira cuja chama já estava muito alta em prejuízo da nacionalidade, da paz social, da segurança jurídica", disse Mello sobre o caso. 
Fux defendeu a atuação de Moro no caso e sustentou que Dilma não estava sendo investigada. No entanto, ele admitiu que, caso a presidente tenha sido interceptada sem autorização do Supremo, a gravação deve ser anulada. "É evidente é que se houvesse algum procedimento, essa interceptação em relação à presidente da República teria que ser nulificada, porque não foi obtida com autorização do Supremo Tribunal Federal", disse. 
  
Violações. Em defesa da presidente Dilma, o advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, disse que apesar da atuação "abnegada" de Moro, a decisão do juiz de manter os grampos viola a Constituição. "Na medida em que alvos interceptados se comunicaram com Dilma, Moro deveria ter encaminhado os autos ao STF, e não o fez", alegou. O ministro defendeu que violações não precisam ser feitas para que crimes sejam combatidos. 
 
Embora este não seja o assunto do julgamento desta quarta, Zavascki adiantou que será difícil confirmar a validade da gravação da conversa entre Lula e Dilma como prova. "Uma das mais importantes conversas tornadas públicas foi gravada depois de ter sido suspensa a ordem de interceptação, de modo que será muito difícil convalidar a validade desta prova", disse. 
 
O ministro defendeu que a coleta de provas na Lava Jato seja feita sem violação da Constituição para evitar nulidade nos processos. "Eventuais excessos que se possam cometer com a melhor das intervenções de se apressar o desfecho das investigações, nós já vimos esse filme e isso pode reverter justamente no resultado contrário. Não será a primeira vez. Por força de cometimento de ilegalidades no curso das investigações, o judiciário já anulou outros procedimentos", afirmou. 
 
"É importantíssimo que nós nesse momento de grave situação que o País passa, da comoção social que essa situação promove, é importante que o Judiciário controle isso, que o MP se empenhe e as autoridades se empenhem no sentido de investigar e punir quem for culpado independentemente do cargo que ocupe e do partido a que pertence", completou.
 
Teori Zavascki confirmou já ter recebido de Moro os autos que estavam em Curitiba sobre o ex-presidente, e agora vai dar vista dos documentos à Procuradoria-Geral da República (PGR) para manifestação. A Corte autorizou que o envio seja feito mesmo antes da publicação do resumo do julgamento desta quinta-feira.

Michel Temer se torna alvo de Lula e de atos pró-Dilma pelo país

Manifestantes contrários ao impeachment da presidente Dilma Rousseff voltaram às ruas ontem (31) nas 27 capitais. O maior ato ocorreu em Brasília, onde a Secretaria de Segurança Pública calculou os participantes em 40 mil –para a organização, foram mais de 200 mil.

Em São Paulo, na praça da Sé, havia 40 mil pessoas, segundo o Datafolha. Para a PM, foram 18 mil e para os organizadores, 60 mil. O ato foi menor do que o do último dia 18 na avenida Paulista, que reuniu 95 mil pessoas, segundo o Datafolha.
Ao todo, os atos nas 27 capitais reuniram 755 mil, segundo os organizadores, ou ao menos 140,8 mil, conforme as PMs -em sete capitais a polícia não divulgou número.

O presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o juiz Sergio Moro e a TV Globo, principais alvos das manifestações favoráveis à permanência de Dilma, tiveram desta vez a companhia do vice-presidente Michel Temer.

Dois dias após o partido presidido por ele abandonar oficialmente o governo, Temer chegou a ser o alvo preferencial dos manifestantes em algumas capitais, como o Rio. A deputada estadual Inês Pandeló (PT) chamou o peemedebista de "traidor" e "golpista" e puxou uma vaia contra ele.

Em Brasília, o presidente da CUT, Vagner Freitas, disse que "a proposta de Temer é tirar direitos dos trabalhadores, tirar a carteira assinada, as férias". Freitas encerrou sua fala com um trocadilho com o sobrenome do vice: "Lutar sempre, Temer nunca".

No Rio, o ato no largo da Carioca, no centro, reuniu 50 mil manifestantes por volta das 19h, segundo a organização. A PM do Rio não faz estimativas de público.

Chico no Rio
- O ato com artistas, políticos e sindicalistas teve a participação do cantor Chico Buarque (foto abaixo), que subiu ao palco aos gritos de "Chico, guerreiro do povo brasileiro". O compositor classificou o impeachment como golpe e fez um paralelo entre o atual momento e o dia 31 de março de 1964, quando começou o golpe militar daquele ano. "Estamos unidos pela defesa intransigente da democracia. Estou vendo pessoas aqui que viveram como eu aquele 31 de março de 64. E não podemos deixar que isso se repita. Não. De novo não. Não vai ter golpe", disse Chico.

Em sintonia com os manifestantes, o ex-presidente Lula afirmou, em vídeo divulgado nas redes sociais nesta quinta, que "não há poder legítimo se a fonte não for o voto popular", em um aparente recado a Temer. "O Brasil sabe que não existe solução fora da democracia, que não se conserta um país andando para trás, que não há poder legítimo se a fonte não for o voto popular", disse Lula.

Afirmando que Dilma não cometeu crime de responsabilidade, o ex-presidente voltou a dizer que o país está dividido entre os que "querem atropelar a democracia, aprovando um impeachment sem base legal" e os que "acreditam na democracia e a defende de corpo e alma".

Lula, que no sábado (2) participará de um ato em defesa da democracia em Fortaleza, exaltou as manifestações contra o impeachment desta quinta. "Quero saudar esse movimento extraordinário que cresce a cada dia e está tomando conta do nosso Brasil. É um movimento de paz, de amor ao país e de fé na democracia e no diálogo", afirmou o ex-presidente.

Cadáver - O ministro Edinho Silva (Comunicação) criticou o clima de intolerância no país e defendeu que as forças políticas sentem para conversar. Do contrário, disse, haveria o risco de aparecer um "cadáver". "Vamos baixar o tom ou vamos esperar o primeiro cadáver?", questionou o ministro, em conversa com jornalistas após ato de Dilma com artistas.

No "Painel" da Folha de SP

Igreja e Estado Em busca de votos contra o impeachment, o Planalto passou a recorrer até a denominações religiosas com influência na Câmara. Na semana passada, Dilma Rousseff telefonou a Edir Macedo, líder da Igreja Universal, pedindo ajuda com a bancada do PRB, que rompera com o governo. O bispo não embarcou na ideia, mas prometeu “orar por ela e pelo país”. Nesta quinta, Gilberto Carvalho foi acionado para interceder junto a parlamentares ligados à Igreja Católica.
Vai faltar cargo O PMDB, sob um eventual governo Temer, reduzirá o número de ministérios. Há uma proposta de um importante aliado do vice-presidente de enxugar a estrutura da Esplanada em mais de dez pastas.
Lista da Dilma O governo degola mais um homem de Michel Temer. Roberto Derziê, vice-presidente da Caixa tido como da cota do vice, deve ser exonerado do cargo nesta sexta-feira (1º).
Ninguém tem A oposição ainda não atingiu os 342 deputados necessários para derrubar a presidente da República.
Última hora Políticos experientes fazem o seguinte prognóstico: o destino de Dilma Rousseff deve ser decidido apenas nos dias imediatamente anteriores à votação.
Gato escaldado O governo conseguiu respirar nas últimas 48 horas. A semana terminará com saldo positivo se o mundo da Lava Jato seguir em calma relativa. Quem acompanha a crise lembra que as operações costumam ocorrer às sextas.
Abaixo da cintura O PMDB ameaça deputados do PP dizendo que, se a sigla deixar o impeachment, haverá representação no Conselho de Ética ou na Corregedoria contra os citados na Lava Jato.
Calma, cocada Apesar das recomendações de pressa, o Planalto não deve fechar o novo ministério até sexta. Primeiro porque seis ministros do PMDB ainda não saíram. Segundo porque não dá para cobrir um santo e descobrir outro. “Não podemos errar agora”, diz um palaciano.
Olho grande O PP pediu e pode levar o Ministério da Saúde ou da Agricultura, ambos com o PMDB. Helder Barbalho, titular de Portos, estaria garantido no cargo. Nas contas do Planalto, ele tem votos para entregar.
Pisando em ovos Lula preferiu não ir à manifestação em Brasília. Não queria estar na rua no momento do julgamento do STF. Temia que o gesto fosse encarado como afronta.
Pausa Dilma vai dar um tempo nos atos políticos no Planalto. Quer mostrar que o governo está governando e se concentrar nos votos do Congresso.

Liquidação no Planalto


Editorial - Folha de SP
O grau de abjeção em que se projetou a Presidência da República pode ser mensurado pelo que Dilma Rousseff (PT) tem feito com o Ministério da Saúde.

O país, como todos sabem, enfrenta graves epidemias virais: zika, dengue, chikungunya, gripe H1N1. Apesar disso, a pasta chave, com seu orçamento de R$ 118 bilhões, está em oferta como prenda na quermesse política de Brasília.

Não que o ministro atual, guindado à posição no surto anterior de negociações imorais (ainda na ilusão de afastar o PMDB das tentações do impeachment), se notabilizasse por eficiência ou sabedoria. As declarações impróprias de Marcelo Castro (PMDB-PI) têm produzido estupefação e manchetes.

Pois bem, ele agora corre o risco de enfim ser exonerado. Não, porém, por incompetência e omissão, nem por lotear o segundo escalão entre asseclas. Castro sairia para abrir espaço ao Partido Progressista, de Paulo Maluf.

Os desesperados operadores de Dilma não parecem incomodar-se com o fato de, na quarta (30), a Procuradoria-Geral da República ter denunciado, de uma só tacada, sete políticos do PP sob a acusação de corrupção e ocultação de bens.

Na balança fraudulenta do Planalto, pesa pouco que a agremiação seja a campeã em membros investigados na Lava Jato. Importa mais que prometa arrebanhar 49 votos na Câmara contra o impedimento da presidente.

A traficância de gabinetes na Esplanada traria outros 40 sufrágios do Partido da República e mais 31 do Partido Social Democrático -que não se percam pelos nomes. E 27 votos, pela mesma via espúria, de uma penca de agremiações nanicas (PTN, Pros, PHS, PT do B, PSL), mais que nunca merecedoras do diminutivo.

Tal a base de lama renovada em que tenta firmar os pés uma presidente cuja capacidade de indignar-se com falcatruas se mostra a cada dia mais seletiva. Não se tem notícia da mandatária que estreou prometendo faxinas ministeriais -que sirva de lição a quem acreditou em mais essa ficção marqueteira.

O governo federal trabalha hoje apenas para sobreviver, e não para tentar dar fôlego a um país afundado em grave recessão. O Planalto se transformou num bunker devotado a maquinar táticas fracassadas no nascimento.

Dilma Rousseff só abre as portas do Palácio do Planalto para transformá-lo em palanque. Despiu-se dos escrúpulos remanescentes para converter a Presidência da República em aríete contra o derradeiro moinho de vento petista, vociferando a palavra de ordem "não vai ter golpe" sob aplausos da claque restante.

Sem o menor pudor, Dilma Rousseff rifa o que lhe restou de governo para salvar a própria pele. A única coisa que comanda no presente é a liquidação do Planalto.

Divisão interna no PMDB freia distribuição de cargos no governo

Diante de divergências internas do PMDB, explicitadas pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, o governo Dilma deve deixar para a próxima semana a "repactuação" do ministério, com a distribuição de mais pastas para aliados como PP e PR.

O adiamento foi sugerido pelo ex-presidente Lula, que tem defendido que o Palácio do Planalto avalie melhor as mudanças ministeriais para tentar segurar pelo menos uma parcela do PMDB.

O projeto original do governo era fechar nesta sexta (1o) a nova composição ministerial, com a demissão dos peemedebistas. Agora, o Planalto já admite manter pelo menos dois dos sete ministros que o partido tinha antes de romper com o governo.

Ontem (31), dois dias depois do rompimento, o presidente do Senado classificou de "precipitada" a reunião do diretório que decidiu pelo desembarque e afirmou que a decisão não representou um "movimento consistente".

Segundo interlocutores de Renan, ele não pretende fazer uma defesa pessoal da presidente, mas continua contrário ao impeachment. Na noite desta quinta, Renan se reuniu com Dilma e fez um apelo pela permanência de ministros do PMDB no governo.

Na véspera, a presidente havia concluído que não haveria espaço para manter os seis ministros peemedebistas que pretendem continuar na Esplanada. Pelo desenho esboçado no jantar, seriam mantidos apenas Hélder Barbalho (Portos) e Celso Pansera (Ciência e Tecnologia).

Segundo relatos, o próprio ex-presidente havia avaliado que a manutenção de Kátia Abreu (Agricultura) e Marcelo Castro (Saúde) não traria apoio relevante para arquivar o processo de afastamento da petista. Além deles, sairiam também Eduardo Braga (Minas e Energia) e Mauro Lopes (Aviação Civil).

Os ministros peemedebistas, no entanto, procuraram Lula para que ele intercedesse junto à presidente pela manutenção de Castro e Kátia. O apelo levou o petista a defender, segundo um assessor, a necessidade de "equilibrar melhor" a questão.

Dentro do Planalto, uma ala defende que a presidente decida nesta sexta quem vai deixar os cargos e publique até segunda as exonerações.

Segundo um auxiliar presidencial, o governo não pode ficar "imobilizado" pela crise interna do PMDB, o que pode inviabilizar o plano de fortalecer siglas como PP, PR e PSD na Esplanada dos Ministérios em busca dos 171 votos para barrar o impeachment na Câmara.

Os três partidos planejam aderir ou recusar à ofensiva do governo em bloco. A cúpula do PP, por exemplo, vem adiando o momento de dar uma resposta ao governo para poder avaliar como o quadro vai se desenrolar nos próximos dias. Ao partido foi ofertada a pasta da Saúde.

O PR recebeu a proposta de ocupar o Ministério de Minas e Energia, mas fez a contrapartida de ficar com a Agricultura, o que levou a atual ministra Kátia Abreu a articular migrar do PMDB para esta legenda. A cúpula do PR, porém, resiste a essa mudança.

Nesta quinta foram demitidos peemedebistas em órgãos como Departamento Nacional de Obras contra a Seca e Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). A expectativa é de que novas demissões sejam publicadas. Réu no processo do petrolão e um dos principais adversários do governo, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), chamou nesta quinta a oferta de cargos pelo governo para tentar barrar o impeachment de "feirão do petrolão".